Biografias

Uma Palestra sobre o Suicídio

Palestra realizada na Comunhão Espírita de Brasília

Em 24 de dezembro de 1900, nasce uma criança no Rio de Janeiro chamada Yvonne Amaral Pereira. Yvonne só desencarnaria 83 anos depois, em nove de março de 1984. Foi uma médium impressionante. Ela, que era uma suicida reencarnada, trazia consigo graves compromissos com almas sofredoras.

Desde muito cedo sua mediunidade apareceu. E, embora ela não tenha chegado às culminâncias do reconhecimento público que Chico Xavier teve, na sua simplicidade foi sempre instrumento para o trabalho mediúnico junto aos espíritos sempre sofredores que se comunicavam através dela. León Denis foi o seu protetor espiritual e Victor Hugo, o grande Victor Hugo, escreveu livros maravilhosos através dela.

E, certa feita, um suicida que com ela se afinizou apresentou-se a ela, dizendo que tinha um sonho, cuja realização havia sido autorizada pela espiritualidade, de, embora alma torturada que fosse, escrever a própria história… E esse espírito, depois de procurar muitos médiuns, havia se simpatizado com Yvonne Pereira, e iria começa a escrever através dela…

Quando a obra termina de ser psicografada, Yvonne contando 26 anos, havia ali um grande  problema: estávamos no ano de 1926, e o livro falava de coisas que não existiam ainda na Terra, como de televisão e de outras tecnologias que só mais tarde surgiriam. Assim, a espiritualidade, sabendo que, se o livro fosse lançado, poderia trazer grandes problemas para  médium, que já  tinha problemas de saúde sérios que a acompanharam ao longo de toda a vida, permitiu que ela guardasse aquela obra completa por algum tempo, sem publicar. Yvonne então manteve aquela obra guardada numa gaveta, e somente no ano de 1954 a FEB lançou, com a autorização de León Denis, Memórias de um Suicida.

Memórias de um Suicida é um livro extraordinário, uma obra  que narra todo o sofrimento do escritor português Camilo Castelo Branco, que assumiu o pseudônimo de Camilo Cândido Botelho, porque o livro fora lançado em 1954, e, em 1944, portanto dez anos antes, Chico Xavier havia sido obrigado à ir Justiça, acusado pela família do jornalista Humberto de Campos, de, vamos dizer assim, fingir que recebia Humberto de Campos!…

Então, para evitar esse tormento, os editores decidiram-se pelo pseudônimo, sob protesto do espírito Camilo Castelo Branco, que desejava que seu nome completo, seu nome verdadeiro, assinasse a obra. Isso porque o desejo daquela alma era verdadeiramente contar às pessoas o seu tormento após o gesto do suicídio.

Memórias de um Suicida é um livro magnífico. Lançado em 1954, nessa época León Denis explicava à Yvonne que o autor da obra já estava, naquele momento, em processo reencarnatório e que, por isso, não poderia mais fazer a revisão do livro. Diante disso, León Denis assume essa possibilidade, e o livro é publicado. Esta obra compõe-se por três partes: Os Réprobos; Os Departamentos; e a terceira parte, a Cidade Universitária.

Lendo Memórias de um Suicida logo a gente percebe que, na espiritualidade, Camilo Castelo Branco meio que amedrontou-se, se pudermos dizer assim, no sentido de perceber que ele precisava ficar o maior tempo possível desencarnado, porque, ao mergulhar na carne, passaria de novo, pela grande prova que não soubera vivenciar: a cegueira.

Quando se viu cego, Camilo dera um tiro no próprio ouvido, porque se considerara o último dos párias. “Como é que ele, um escritor, estava cego?!?!”, pensava. “Como é que dependeria da caridade alheia, para tatear as paredes, para alimentar-se, para banhar-se?!”. Diante dessa angústia, ele optou, então, pela porta do suicídio, segundo o seu entendimento à época, o caminho mais rápido e que seria o mais confortável…

E Memórias de um Suicida começa no ponto em que ele diz: “exatamente no mês de janeiro de 1891, fui eu preso de uma região de sofrimento…”. E, ali, começa a descrever o seu calvário. Em janeiro de 1891, Camilo se mata e, para a sua surpresa, descobre que, com o seu gesto, apenas o corpo físico pereceria. Ele continuaria ainda vivendo, ainda cego, embora pudesse dar conta de tudo o que se passasse à sua volta.

Camilo sentia um cheiro insuportável de carne humana se decompondo, até perceber que estava sentado sobre o próprio túmulo, onde o seu corpo se deteriorava. E os espíritos sofredores que andavam por aquele cemitério gritavam para ele: “suicida, suicida!!!”. Ao que  ele respondia: “eu, suicida?! Nunca!!! Pois que eu não me matei, estou vivo!!! Eu tentei, é verdade, me matar, mas não consegui…”. Ele já estava desencarnado, tinha sido enterrado, já estava até sendo esquecido pelas pessoas que ele tanto amara, mas que, é óbvio,  em sua maioria consideravam que ele havia se  acovardado, que não lhes dera o valor devido, fugindo da vida e menosprezando os seus sentimentos de afeto…

Camilo então narra, nos primeiros capítulos do livro, toda a sua trajetória de desespero nas cavernas escuras onde passou a viver, totalmente dementado, enlouquecido, porque se julgava ainda imerso em um corpo de carne. Naquela caverna brutal buscava se proteger ao lado de mais quatro espíritos, portugueses como ele, de quem só bem mais tarde, quando puderam os cinco vir a ser socorridos, descobriria os respectivos nomes, assim como saberia do tempo que haviam ficado naquela região de padecimento.

Ali, naquele lugar, em determinado momento soava um tipo de sirene. Era quando chegavam  espíritos abnegados, vestidos da forma hindu, em carruagens luminosas e espécimes de padiolas, para carregar sofredores autorizados a serem tirados dali. Para a surpresa de Camilo, ele nunca era escolhido: nem ele, nem os amigos que moravam com ele.

Nesses momentos, quando os enfermeiros tinham muita dificuldade em encontrar alguém, uma voz, vinda não se sabia de onde, como se fosse um grande megafone, dizia a eles: “fulano de tal, rua tal.”. Ou: “vocês vão encontrá-lo desmaiado em tal lugar.”… E aí, imediatamente, os enfermeiros iam até onde estava aquele espírito, muitas vezes caído, recolhiam-no e o colocavam nas ambulâncias. E é óbvio que, quando as portas das ambulâncias fechavam-se, aquelas almas desesperadas subiam sobre as ambulâncias, querendo invadi-las, porque sabiam que, por enquanto, não sairiam dali. O socorro ia embora, naturalmente, e o silêncio entrecortado de gritos pavorosos voltava a reinar. E Camilo não podia compreender porque apenas determinados deles eram socorridos…

Bem mais tarde Camilo vem a entender, estudando na espiritualidade, que nós temos um cordão fluídico, semelhante ao cordão umbilical que une o bebê à mãe, que une o nosso corpo físico ao nosso perispírito. Ali está todo o tônus vital que vamos gastar, ao longo de  60, 70, 80 anos nesta vida. E esse cordão fluídico só escurecerá, luminoso que é, quando chegar a hora definitiva da nossa partida. Ele se desfaz quando as pessoas agonizam; quando morrem naturalmente; e mesmo quando lhes advém uma morte violenta, no sentido de um acidente, se para isso elas não incorreram. Então, nesses casos, ele irá se desfazendo, se despregando, naquele instante que chamamos agônico. Mas o suicida não tem tempo para isso: ele perece, faz perecer o corpo por sua própria vontade, e rasga obrigatoriamente aquele cordão fluídico, contrariando uma lei que é Divina.

Imagine uma pessoa cometer um ato desses aos 28 anos de idade e ter tônus vital para viver na Terra por 80, 85 anos ou até mais… Aquilo fica ainda luminoso, o pedaço que sobra fica pendurado na pessoa e, obviamente, torna-se uma visão terrível. A pessoa torna-se, naturalmente, uma alma sofredora, uma alma suicida, portando aquele cordão fluídico que ainda retém a energia que deveria estar sendo usada, vivenciada na Terra.

Com esses estudos é que Camilo percebe que, lá naquela região de sombra em que ele esteve, quem tinha o cordão fluídico enfim apagado é que era recolhido pelas ambulâncias. Porque somente então estava finda a energia que deveria ter sido gasta na Terra. Só quando isso aconteceu também a ele e aos seus companheiros foi que a ambulância, naquele dia, chamou  os seus nomes. E aí ele veio a descobrir o nome dos outros quatro infelizes que estiveram com ele naquela região de sofrimento atroz, onde a dor era tamanha, a raiva, o desespero eram tamanhos que eles não podiam nem se dar ao luxo de perguntarem os próprios nomes uns aos outros.

Um estado de exaustão total, dias antes do recolhimento, havia acometido aos cinco infelizes daquela caverna, e eles não conseguiam mais nem sair do lugar onde estavam. É nesse momento que vêm as ambulâncias e os recolhem. E Camilo termina toda essa descrição, dizendo: “Deus do céu, saíramos daquele inferno absoluto!…”.

E, detalhe: ali, cada suicida via, no outro, seu próprio momento tresloucado do suicídio. Então os suicidas saíam por ali, andando sem razão, procurando uma saída daquele lugar, do Vale dos Suicidas, criado pelas próprias mentes doentias daqueles que estavam ali reunidos, por afinidade, e, de repente, passava-lhes um trem desgovernado, saído fortemente da imaginação daqueles que haviam se lançado à frente deste meio de transporte, por exemplo. Ou então eram apavorados por mulheres – e Camilo cita que a maioria nessa condição eram mulheres – que passavam correndo, tomadas por labaredas de fogo em seus corpos espirituais, porque haviam se matado atiçando álcool ao corpo e aí ateado fogo em suas próprias vestes.

Então, imaginem o drama do suicida, de viver o seu próprio pesadelo e conviver com o pesadelo dos outros, à sua volta. Essas regiões, de extremo sofrimento, no mundo espiritual, existem porque um enorme número de almas sofredoras se reúne no mesmo lugar e mentaliza aquelas situações absolutamente terríveis.

E não adianta dizermos que, de alguma forma, vamos encontrar justificativas para o gesto do suicídio, porque não encontraremos. Os espíritos sempre nos lembram que o suicídio é o único gesto que, se tomado na Terra, para ele, no mundo espiritual, não conseguiremos encontrar qualquer justificativa. E, é claro, o espírito passa a vivenciar a situação de uma alma que lançou, à face de Deus, o corpo físico que era empréstimo para si mesmo… 100, 200, mais anos às vezes não são suficientes para esse resgate.

E Camilo começa a perceber que a sua volta à Terra, no futuro, seria novamente com a cegueira. Porque justamente a não aceitação da cegueira havia sido a causa do seu suicídio. E conhece também a história de Mário Sobral, um dos seus companheiros de infortúnio: quando na Terra, Mário tinha família, filhos… mas apaixonara-se perdidamente por uma mulher, num prostíbulo, chamada Eulina. Tão apaixonado tornou-se que, ao descobrir-lhe a traição, resolve matá-la e depois suicidar-se. Mário estrangula Eulina e, depois, pendura-se no teto, enforcando-se.

Quando ambos, Camilo e Mário, começam a apresentar melhoras no mundo espiritual, acolhidos no Hospital Maria de Nazaré, hospital da espiritualidade que recebe almas suicidas, principalmente aquelas desencarnadas em Portugal, Espanha, Brasil, ali, quando eles começam a melhorar, Mário diz a ele: “Camilo, eu já percebi que não vou conseguir resolver todos os meus débitos ficando aqui. Já percebi que vou ter de voltar à Terra. Mas o que mais me preocupa é que estou sentindo as minhas mãos como que dormentes, eu não estou sentindo as minhas mãos… e alguma coisa me diz que eu vou renascer sem as mãos, porque eu deixei as minhas mãos no pescoço de Eulina, a amante que confiava em mim e que eu matei…”. E não deu outra: para voltar à  Terra e resgatar os débitos, Mário Sobral vem sem as mãos. (Nem preciso dizer a vocês que aquela que o recebeu como filho foi a mesma Eulina, a ex-amante morta por ele, agora em novo corpo. Vítima ontem; hoje, protetora, porque o perdoara completamente e pôde, então, recebê-lo como filho).

Camilo não se enganara: ele percebe que, muitas vezes, as almas suicidas adiam sua necessária volta à Terra por falta de coragem. No retorno à Terra, as almas suicidas têm de tentar  estabelecer, novamente, aquele processo anterior de sofrimento, para, enfim, resgatar o  que haviam deixado de fazer.

João d’Azevedo, que Camilo vem a conhecer na espiritualidade, pessoa que tinha perdido toda a sua fortuna no baralho, percebe, no mundo espiritual, a necessidade de ajudar àqueles que estavam, na Terra, nas casas de jogos. E se sente atraído a renascer e se aproximar, de novo, de uma dessas casas, agora com outras intenções, porque ali estava o seu processo de resgate também.

Belarmino, que havia, por causa da tuberculose, aberto os próprios pulsos, por não admitir a doença e toda a desgraça que com ela adviria, ao final do século XIX, ali percebe claramente que teria de voltar à Terra tuberculoso novamente. E pede, então, para voltar na região do nordeste brasileiro, filho de mãe e pai paupérrimos, para, ainda na infância, passar por essa prova.

Diante de tantos quadros terríveis, Camilo vai ficando cada vez mais acovardado, porque ele também teria de enfrentar o seu passado… E muito sofre porque, ao retornar em visita, 17 anos após o seu suicídio, a Portugal, percebe que ninguém mais se lembrava dele. É quando começa a procurar médiuns, através dos quais poderia escrever sobre a sobrevivência da alma, mas vê o preconceito arraigado na sociedade da época: os médiuns que afirmavam tê-lo recebido eram taxados de loucos, porque “jamais o grande Camilo Castelo Branco poderia estar vivo, além da morte”…

E é em Memórias de um Suicida que Camilo nos leva a essa viagem impressionante. Lembrando-nos sempre que o gesto máximo de desistir da vida começa a partir dos nossos pequenos desânimos não solucionados. Começa nos dias em que nós vamos acumulando a  descrença, a tristeza, a insaturação das alegrias que achamos que nunca temos e que nunca teremos.

Os amigos espirituais nos têm reiteradamente transmitido mensagens chamando-nos a atenção para o fortalecimento do nosso coração, da nossa consciência, do nosso espírito aguerrido, porque dizem que os próximos quatro anos na Terra serão de enormes lutas e dificuldades para todos nós, pessoal e coletivamente. Se nós começarmos a pensar em fantasmas, se começarmos a achar que as coisas não vão dar certo, vamos sendo minados, não importando a idade física que tenhamos. Se colocarmos muitas dificuldades para aceitarmos a vida como ela é, torna-se então mais difícil que ela se torne melhor… Por isso é que livros psicografados em 1926, quanto tantos de nós ainda nem estávamos na Terra, são ainda tão fundamentais, para nos lembrar que somos nós mesmos que fazemos a nossa vida, somos nós mesmos que tomamos as nossas decisões, somos nós mesmos que resolvemos como será a nossa relação com o outro e o quanto vamos deixar que o outro nos magoe, nos infelicite, não nos respeite; ou nos ame, nos leve para cima, nos diga e nos faça crer que dias melhores virão, que nós vamos construí-los em todos os instantes da nossa existência.

Nesse contexto, as religiões são fundamentais, todas elas, porque cada um de nós, dentro da nossa maturidade específica, precisa de determinada religião. E é por isso que religião não se discute, porque cada um de nós precisa ter a sua própria convicção, que é individual e intransferível. Nós, que nos enamoramos da Doutrina Espírita, costumamos dizer aos outros que sabemos mais… E acho graça ao me lembrar de conhecido poeta, que, nos últimos anos de sua existência na Terra, enamorou-se também da Doutrina Espírita. Este poeta, curiosamente, mandou escrever em sua lápide: “agora, com certeza, eu sei mais do que todos vocês!…”.

A verdade é que a morte física nos faz de novo recuperar a memória eterna. Extraordinário pensar que todos nós fomos criados por Deus para essa beleza que às vezes mal percebemos, mas que um dia será toda nossa, a verdade da Vida Maior. E mais generoso e sábio é também  percebermos que os nossos adversários, aqueles que não nos amam, aqueles que não nos entendem, aqueles que até nos prejudicam, foram criados pelo mesmo ato divino, foram criados para a mesma destinação. E, portanto, respeitar a Deus e às forças do Bem que protegem o universo é também respeitar o outro, mesmo quando esse outro não tem o necessário equilíbrio e nem maturidade para praticar respeito. Se nós vamos acusar alguém, se vamos apontar alguém, verifiquemos se não estamos em situação igual ou até mais difícil do que aquele companheiro que estamos apontando. É básico.

Camilo vai aprendendo tudo isso pelos hospitais por onde passa, sempre internado. E percebe que, entre ele e os amigos, havia sempre uma tristeza que nunca passava, embora fossem amorosamente tutelados por grandes espíritos de luz, ali, naquela ocasião, hindus principalmente, que trabalhavam na recuperação das almas suicidas, no grande Hospital Maria de Nazaré. A própria mãe do Cristo, protetora de todas as almas sofredoras, em especial dos suicidas, dirige a plêiade imensa de almas que protege e abençoa a todos os espíritos que, por extrema infelicidade, fugiram da vida pelas próprias mãos.

E o grande autor português percebe também que aquela grande tristeza que sentiam estava relacionada ao fracasso da alma cometido, fracasso de não ter conseguido esperar até o fim, para a solução das dificuldades. E Camilo chega ao estágio, 17 anos após o seu suicídio, de já estar em condições de realizar visitas, no próprio hospital em que estava internado, àqueles que estavam chegando, recém-chegados do Vale dos Suicidas, nas mesmas condições desesperadoras em que, um dia, ele também ali chegara. E Camilo então passou a falar, a esses novos pacientes do Hospital Maria de Nazaré, com palavras amorosas, contando sua própria experiência, dizendo que ali os esperaria um novo processo de reencarnação, e que ele também passaria por isso…

E é tão delicada a recuperação do suicida que Camilo Castelo Branco chegou a uma área, do hospital, chamada manicômio. Ali, ao contrário do que se poderia imaginar, não estão pessoas enlouquecidas simplesmente, mas pessoas cristalizadas em suas próprias teorias inabaláveis sobre si mesmas. Então ali estão suicidas que afirmam, muitas vezes quase um século depois do ato que praticaram, que, não, não fizeram nada de errado… Espíritos que entram num processo absoluto de cristalização hipnótica. E ficam ali porque é preciso que, diariamente, sejam tutelados por mentores.

Nesse manicômio Camilo conhece Agenor Penalva, espírito que tinha sido socorrido há 39 anos, mas que ainda trazia consigo a nobre roupa do fidalgo espanhol que havia sido. Diariamente, um dos mentores de Agenor Penalva precisava ir até o seu quarto, naquele  manicômio, colocar uma frase do Pentateuco num caderno e dizer a ele: “meu filho, você hoje vai escrever sobre isso…”. E, muitas vezes, Agenor ficava revoltado. Dizia: “de jeito nenhum!!! O que eu estou fazendo aqui há tanto tempo?!?!…”. Ele, que se dizia vítima de toda uma situação…

E, exatamente naquele dia em que Camilo visitou o manicômio, o mentor de Agenor colocou-lhe no caderno a assertiva: “honrai a vosso pai e à vossa mãe.”. E Agenor ficou indignado: “o quê?!?! Eu vou ter de escrever sobre isso?! Logo eu, que adorava a minha mãezinha, minha mãezinha era tudo para mim!!! Eu, que jamais criei um desgosto para ela!…”. E então o mentor calmamente o conduziu: “Agenor, eu acho que você não está se lembrando… Vamos até a outra sala…”. E ali, na outra sala, colocou Agenor, sob ordens, não sob pedido, numa espécie de máquina, quando Agenor começou a gritar: “não, por favor, hoje eu não estou preparado, hoje eu não estou podendo, estou me sentindo fraco, vamos deixar para amanhã…”. Mas o mentor: “não, Agenor, você já está adiando muito a sua recuperação…”. E ali, naquela máquina,  aparece, qual fora um filme projetado à frente, cenas de como havia sido, de verdade, a relação de Agenor Penalva com a sua pobre mãe, que ele lançara à miséria absoluta.

A verdade é que nós somos aquilo que nós mesmos fazemos de nós, e, do outro lado da vida, um dia, nós vamos contar a nossa própria história, queiramos ou não. Porque, para voltarmos à Terra, e voltar à Terra ainda será necessário para nós por muito tempo, já que a Terra é o hospital-escola que nos acolhe, nós vamos ter de refazer a nossa programação, vamos ter de observar tudo o que não fizemos. Hoje isso pode nos parecer a mais absoluta tolice, mas, amanhã, do outro lado da existência, entenderemos a gravidade de todos os nossos gestos, palavras, do silêncio, dos sonhos, das mentalizações, daquilo que pensamos embora não tenhamos falado, porque pelos nossos pensamentos também seremos observados.

Por isso tudo é que Jesus afirmava: “o Pai vê o que fazes em segredo.”… E Paulo de Tarso disse  que somos acompanhados por uma nuvem de testemunhas invisíveis…

Fora da matéria, quem sabe já não teremos sido nós também obsessores, perseguidores daqueles que amávamos e que não queríamos ver felizes sem a nossa presença. Quem sabe já não tenhamos nós também sido suicidas???

E Camilo nos narra, em Memórias de um Suicida, todo esse processo de escondermo-nos de nós mesmos. E nos lembra que, tal como ele e seus amigos, muitos de nós também somos especialistas nisso: em fingir; em esquecer; em fingir que somos felizes, para não tocarmos em determinadas feridas que precisamos severamente solucionar; em fingir que respeitamos o outro, quando queremos que o outro esteja sob nossa tutela e faça somente aquilo que é conveniente e “bom” para nós…

Muitas vezes nós afirmamos que nossos filhos têm toda a liberdade, que podem fazer o que quiserem, mas, se nos contrariam, sonhando algum sonho que nós não queremos que eles sonhem, então já ficamos desesperados. Mas nossos filhos também são almas que vêm do espaço, como diz o Evangelho Segundo o Espiritismo, para progredir em nossos braços. E, não nos esqueçamos, muitas vezes suas escolhas não serão aquelas que nós pretenderíamos, por considerarmos serem as melhores.

Emmanuel dizia, através da mediunidade de Chico Xavier, que, às vezes, um pai ia procurar orientação espiritual, querendo o filho engenheiro ou médico, mas que uma enxada, nas mãos daquele filho, ensinaria muito mais!… E, é óbvio, ninguém quer isso: queremos nossos filhos brilhando, nossos filhos, se possível, com mais de uma universidade… mas, às vezes, a alma vem não para ser um doutor, mas para recuperar emocionalmente aquilo que desgastou pelo caminho em vidas em que conseguiu ser um doutor, mas não soube honrar o diploma, ou a própria profissão escolhida.

Todas essas pessoas que hoje vemos, muitas vezes pela televisão, como pessoas enlouquecidas, dementadas, assassinas, vingativas, pessoas tresloucadas que não perdoam, que roubam e que, naturalmente, muitas das vezes, não serão talvez capturadas pela justiça terrena, no mundo espiritual certamente estarão em um processo de loucura, e muitas delas não serão mais convidadas nem mesmo a habitarem a Terra.

Em sua saga, Camilo chega a um departamento, o Departamento da Reencarnação, em que os espíritos suicidas observavam, em matrizes maravilhosas sobre uma mesa, a reprodução dos corpos que tinham tido na Terra, quando se mataram. E, ao lado dessa imagem, num monturo, como tinha ficado o corpo, depois do gesto do suicídio.

Sofrimento por demais atroz viviam aqueles que se haviam lançado à frente de carros, de trens, de carruagens, aqueles que se haviam lançado de prédios, abismos, e ficavam completamente retalhados, no seu perispírito também. E ali, no Departamento da Reencarnação, todos tinham de planejar sua próxima existência.

No dia em que Camilo fora a esse Departamento, justamente naquele dia, dois espíritos grandemente sofredores estavam também ali para pedirem pelos seus próprios processos reencarnatórios. E, desafio: descobriram que era preciso encontrar mães que os quisessem! E então, durante as horas da noite na Terra, durante o sono, o espíritos do Hospital Maria de Nazaré foram buscar duas jovens. Uma morava na Ilha de São Miguel, em Portugal; a outra, no nordeste brasileiro. Vocês imaginem: as duas, desdobradas, fora da matéria, foram levadas até aquele Departamento e lhes foram apresentados os dois espíritos que pediam a elas que os recebessem como filhos…

A portuguesa tinha ao seu lado, desdobrado com ela, o marido. Eram recém-casados, ela tinha somente 18 anos e, quando viu aquela alma suicida que se candidatava, logo disse: “Mas de jeito nenhum!… Eu e meu marido somos recém-casados, temos tantos sonhos, queremos um filho risonho, sadio. E, além do mais, nós moramos no meio de uma ilha: como é que o nosso primeiro filho vai ser assim, retardado?!?! Não posso.”. A outra jovem, solteira, do nordeste brasileiro, que havia sido seduzida por um rapaz que, naturalmente, nada haveria de querer  com ela, chorava copiosa, dizendo: “se eu apareço grávida, meus pais me matam!… Eu não posso receber nem uma criança sadia, quanto mais uma alma suicida…”.

E os espíritos, tranqüilos, calados, escutavam. Até que, diante da decisão das duas, de não quererem aceitar aquilo que era um convite da espiritualidade, resolvem levá-las a uma outra sala, onde, rapidamente, elas ficam sabendo o que tinham feito das duas últimas encarnações que lhes haviam sido concedidas por permissão divina… Os espíritos são sutis, não é?!

A gente esbraveja, chora, fala “eu quero fazer e acontecer”, “quero ser uma mistura de Frank Sinatra com Roberto Carlos”… não é?! Mas, que nada: Camilo nos conta que as duas jovens saíram daquela sala, naquela noite, abraçadas àquelas almas suicidas, dispostas imediatamente a recebê-las. Na pobreza, na enfermidade, na incapacidade física, iriam receber aqueles espíritos, porque elas sabiam que precisavam desse gesto de amor, para também poderem avançar.

Para a nossa surpresa, Camilo também nos conta que todos nós deixamos, no mundo espiritual, vida após vida, uma espécie de relatório, onde declaramos que nos predispomos a receber determinadas almas ao nosso lado, face as nossas dívidas de existências anteriores. Mas, quando isso acontece, no momento em que estamos aqui na Terra, no auge da nossa felicidade, da dita beleza, da alegria, da saúde, quando algo ameaça nos interceptar o caminho, nós imediatamente já blasfemamos: “Deus não existe! Pra quê que eu vou tanto à casa espírita, pra quê que eu assisto palestra e tomo passe?! Pra isso???!!!”. Isso no caso nosso, os espíritas…

E Camilo também nos recorda, na sua obra magnífica, que o afeto está intimamente relacionado à nossa saúde, à nossa capacidade de pensar com discernimento, e que a Medicina só avançará (e disse isso em 1926, hein?!) quando os médicos não nos virem mais apenas como um corpo, mas como um todo complexo. E é por isso que os amigos espirituais nos afirmam que, num distante futuro, na Terra, os médicos terão, inclusive, acesso às nossas vidas anteriores, para que possam entender, junto conosco, o porquê de situações como a de quem nunca fumou, mas traz uma enfermidade pulmonar; a situação de quem nunca provou álcool, mas tem o fígado problemático; ou a situação de quem, por exemplo, nunca está bem, ou nunca cometeu qualquer excesso, mas traz insuficiência renal inexplicável… Somos o passado em forma de presente!

E, em 1954, Yvonne veio a saber que Camilo já estava em seu processo reencarnatório. Durante 64 anos Camilo conseguira adiar a sua volta. Hoje, nos contam os amigos espirituais, ele está na Terra, é espírita e completamente cego. Camilo pediu que tivesse a possibilidade de conhecer, nesta sua vida, a Doutrina Espírita, porque, estudando, fora da matéria, percebeu que, talvez, se tivesse tido contato com essa doutrina esclarecedora, em sua encarnação  pregressa, talvez não tivesse cometido o disparate do gesto do suicídio.

Camilo, que teve a oportunidade de assistir aulas na espiritualidade com o Dr. Bezerra de Menezes e com o grande poeta Bittencourt Sampaio, nos conta da vergonha de, a todo momento, se ver colocando a mão a tapar o ouvido, no tique nervoso de tentar estancar o sangue que ele sentia como se  borbotasse  sobre ele – sangue que, na verdade, estava na sua imaginação, porque seu corpo físico já não existia há muito tempo.

Para tentar controlar esses distúrbios, Camilo e seus amigos buscavam assistir as palestras para as almas suicidas, no plano espiritual, sentando-se sobre as próprias mãos. E ele via que, como ele, que a toda hora levava a mão ao ouvido, também Mário Sobral a todo instante colocava as mãos em volta do pescoço, como a tirar o lençol com que se havia enforcado após matar Eulina. Como ambos, também Belarmino via sair dos seus pulsos o sangue que ele não conseguia estancar de forma nenhuma… Camilo e seus amigos só conseguiram se livrar desses tiques nervosos  após longos processos hipnóticos realizados pelos irmãos hindus, que coordenavam toda a recuperação das almas suicidas nas regiões da espiritualidade.

E eu me lembro que, há muitos anos, quando eu contava 17 anos, estávamos todos aqui na mesa, realizando a prece dos suicidas, quando adentrou ao recinto uma mulher desesperada. Era uma mulher desencarnada é claro. Estava envolta em chamas, enlouquecida. Ela atravessou aquela porta e chegou até aqui, à frente. Essa mulher gritava tresloucadamente, porque seu corpo estava todo dominado pelo fogo. E, naquela loucura, ela pedia que alguém jogasse água sobre ela, pelo amor de Deus, para que o fogo desaparecesse… E eu comecei a me comover, óbvio, porque via que aquele espírito estava desesperadamente pedindo socorro…

Então, eis que  sai, do meio da platéia de desencarnados, um jovem, lindíssimo, que vem até aquela moça em chamas e coloca a mão sobre a cabeça dela. Naquele momento, nós vimos sair um jato de luz safirina da mão do rapaz. Imediatamente a pobre moça grita aliviada: “água, água… vocês me ajudaram, jogando água sobre mim…”. O dr. Bezerra de Menezes, presente àquela reunião, então nos disse que aquela moça, 58 anos antes, havia matado aos quatro filhos e ateado fogo ao próprio corpo. 58 anos! E apenas naquele dia ela estava adentrando à Comunhão Espírita de Brasília e pedindo socorro,  às 18 horas de um domingo, na prece dos suicidas. Foi uma cena encantadora, porque o próprio dr. Bezerra abraçou com carinho aquela jovem, a envolveu exausta em seu colo e levou-a…

Eu, admirada com a cena e com a beleza daquele jovem que a socorrera, comentei com os presentes que eu estava impressionada com a beleza do rapaz, com a luz que irradiava dele, com a generosidade inata do seu coração, em socorrer imediatamente aquela jovem desencarnada, em sofrimento há quase 60 anos. E ele, me vendo falar sobre seu gesto, aproximou-se de mim, deu um suave sorriso e me mostrou os próprios braços: ali, a cicatriz dos pulsos cortados, há muito, muito tempo… Ele, que havia sido também alma suicida, hoje alma recuperada, iluminada, trazia ainda consigo as marcas do erro que havia outrora cometido, como a se lembrar que ninguém é infalível…

Trabalharemos sempre pela nossa recuperação, viveremos para isso, não para ocultarmos o nosso passado, mas para transformá-lo, porque fomos criados por Deus, para a beleza e perfeição que nós vamos alcançar de alguma forma, um dia. Conseguiremos, no máximo, adiar, com atitudes menos dignas e nobres, a chegada triunfal do nosso coração totalmente belo e digno à verdadeira morada de todos nós. Lá, haverá, sim, trabalho, porque nós vamos passar a ajudar aqueles que ainda estão no caminho, como hoje nos ajudam os mentores espirituais, aqueles seres que estiveram conosco, que foram nossos amigos, nossos namorados, nossos filhos, mas que, por motivos diversos à sua própria intenção, se adiantaram, foram à frente, mas que hoje não podem ser totalmente felizes, porque nós permanecemos na estrada…

Enquanto não estivermos todos unidos aos corações que mais amamos não seremos completamente felizes. É por isso que, muitas vezes, quando os relógios apontam as seis horas da tarde, muitos de nós sentem suave melancolia, ou, dependendo do nosso problema, uma tristeza grande, porque essa é a hora em que Maria, mãe de Jesus, recolhe a súplica de todas as criaturas… É a hora em que até no Vale dos Suicidas o silêncio acontece. É a hora em que, no Hospital Maria de Nazaré, todos voltam o olhar para o chão, para implorar a proteção da mãe de Jesus ao seu recomeço.

Há uma frase de um anônimo, que eu adoro, que diz assim: “ó Senhor dos grandes recomeços, aqui estou eu, mais uma vez!…”. No fundo, todos nós fazemos a mesma coisa: a cada encarnação, a cada retorno à Terra, nós somos aqueles que, à frente de Deus, dizemos: aqui estou eu, Senhor, mais uma vez, para recomeçar…

Por isso, o que nos importa se as pessoas não nos amarem como queremos?!.. O que nos importará, se as pessoas duvidarem de nós, se as pessoas nos invejarem, se não nos compreenderem, se não observarem a vida como nós observamos?! Todos nós amadureceremos, todos nós chegaremos a esse grande fanal que é a felicidade sem nenhuma mácula, e, quando lá estivermos, nós vamos querer fazer todas as criaturas felizes também.

Por isso também pensemos: as coisas da Terra são tão pequenas, são tão passageiras, e nós nos deixamos enredar por elas, ficamos totalmente amargurados, paralisados, passamos as semanas, os meses, os anos, reclamando que a vida não é aquilo que nós sonhamos quando crianças ou adolescentes, não é aquilo que pretendíamos, mas, muitas vezes, nada fazemos para nos modificar e modificar o nosso destino, não vamos em busca das grandes transformações, ficamos mesmo sem coragem para os  grandes desafios,  permanecemos com medo de encarar de frente aquilo que nós estamos adiando, muitas vezes há varias vidas, para solucionarmos.

Se quisermos, nós sempre encontraremos uma desculpa, sempre haverá uma justificativa, um “ah, eu não posso”, ou “ah, eu não tenho força”, “não é do jeito que eu queria”… e assim a vida irá passando, porque 100 anos, dizia Emmanuel, através de Chico Xavier, “é um relâmpago na eternidade…”.

Ontem, no cine-debate que realizamos à noite, no Cine Brasília, o Dr. Roberto, psiquiatra que dirige o Hospital André Luiz, em Belo Horizonte, nos contava que Chico Xavier, certa feita, recebeu uma senhora que, em grave perturbação, foi até ele e lhe disse: “Chico, eu vim te dizer uma coisa: essa história de Doutrina Espírita não serve para nada. No dia a dia não adianta!!!”. E o Chico, muito tranquilamente, lhe respondeu: “minha amiga, provavelmente você tenha toda a razão…”. A mulher ficou frustradíssima, foi embora, mas, dois anos depois, retornou ao mesmo Chico Xavier e lhe disse: “Chico, eu vim te pedir perdão: Chico, eu estava doida! Chico, Doutrina Espírita é tudo! Chico, Doutrina Espírita resolve tudo na vida da gente!…”. E aí o Chico voltou a responder: “É verdade, minha amiga: provavelmente você tenha toda a razão!”. E aí o Dr. Roberto comentou conosco: “por isso que o Chico nunca ficava doente das emoções!”. Chico Xavier tinha todos os problemas de saúde no corpo físico, mas, emocionalmente, ele era perfeito. E era perfeito também porque ele sabia que a loucura dos outros tem de ficar com os outros, não conosco…

E, às vezes, temos aqueles amigos tão queridos, amados, que nos lançam os seus xingamentos, que nos lançam toda a sua mágoa, que nos lançam a sua inveja, toda a sua desfaçatez… e, depois de tudo, saem ótimos e ainda nos dizem: “nossa! Eu adoro conversar com você! Eu fico ótimo!”. E você, ali, desmaiado; a  sua samambaia, morta; o  seu cachorro, no veterinário!!! Todo mundo pega um pedaço da carga! E, o pior, ainda tem gente que acaba se achando um “médium” daqueles, porque pegou a rebarba e agüentou firme! Mas também é preciso ter cuidado para ajudar. Porque, muitas vezes, de tanto pegar a carga emocional dos outros, e sofrer junto, chorar junto, se amargurar junto, nós podemos acabar adoecendo também da nossa emoção, da nossa vontade, do nosso desejo de sermos melhores e, consequentemente, da nossa disposição para sermos mais felizes.

Não nos esqueçamos, meus amigos, que, dia a dia, os anos vão passando – e como passam rápido! Então felizes de nós se tivermos a sabedoria de tudo aceitar para transformar, não para nos conformarmos. Porque nós precisamos nos indignar sempre com a injustiça, com as maldades, com o que não é certo. Nós devemos, sim, discutir, em sociedade, questões que afetam a todos nós e sobre as quais, muitas vezes, nós fingimos, por causa talvez da religião, que não temos “nada a ver com isso”…

Em três semanas, três bebês recém-nascidos foram encaminhados ao abrigo Nosso Lar. Foram os três lançados na rua, não se sabe por quem. O último foi achado há poucos dias, em cima do lixo, coberto de terra e completamente roxo de frio. E aí, quando ficamos sabendo de atrocidades assim, começamos a pensar sobre o que acontece com uma pessoa que é capaz de pegar um bebê recém-nascido, com cordão umbilical ainda preso ao corpo, e lançá-lo na rua, sem imaginar que uma cobra, um cachorro, um rato, vão atacar aquela criança. É de uma dureza de coração impressionante. Enquanto nós, por exemplo, não discutirmos a questão de levarmos os nossos jovens a meditarem sobre a responsabilidade de uma gravidez, geralmente precoce, nós estaremos sujeitando seres indefesos a estarem no limbo social, essa é que é a realidade.

Nesta semana faleceu o Seu João, do Centro Espírita Irmão Estêvão… Quando eu soube do desencarne desse querido amigo, logo pensei: “…mas Deus é seletivo, né?! Tem levado só quem vai ajudar lá no céu…”. Na verdade o Seu João foi um grande trabalhador da Doutrina Espírita. Empresário de sucesso, fundou  jornal e revista espíritas com o seu próprio dinheiro. E eu me lembro que ,em 1976, quando eu contava 18 anos, no final do Congresso Mundial de Jornalistas Espíritas, estávamos, meninos que éramos, caídos pelas escadas do Ginásio de Esportes, mortos de cansados, quando ele foi o único dos organizadores que veio nos erguer e nos  falar da beleza de termos apenas 18  anos mas já estarmos trabalhando pela Doutrina Espírita. Em abril deste ano, no Congresso que festejou os 100 anos do nascimento de Chico Xavier, lá estava o Seu João, nos recebendo diariamente, à frente de um batalhão de trabalhadores da Federação Espírita Brasileira que o obedeciam com amor, porque viam nele a autoridade moral de quem passa pela Terra apenas fazendo o bem e seguindo o bom exemplo de Jesus.

Se Deus quiser seremos nós também pessoas nobres assim, porque cada pessoa que parte deixa um trabalho que nós devemos dividir entre nós e passar a desempenhar. E a missão de não termos nenhuma vergonha de dizermos que somos amantes dessa doutrina maravilhosa, que nos diz que somos imortais, que voltaremos à Terra quantas vezes forem necessárias, para refazermos o nosso destino, e o destino de todas as pessoas que estiverem à nossa volta.

Vou me despedindo de vocês, assim, quase que com uma tristeza, então me recordei, para nos alegrar, de que, amanhã, domingo, o filme Nosso Lar completará quatro milhões de expectadores, o maior sucesso que o cinema brasileiro já teve! As pessoas estão brincando, dizendo: “ah, eu fiquei tão decepcionada, Mayse.” E eu pergunto: “por quê?! E elas me dizem: “porque eu descobri que, depois que eu morrer, eu vou encontrar tudo do Oscar Niemeyer do lado de lá!!!” E aí eu também brinco, dizendo: “mas de onde você acha que Oscar Niemeyer trouxe toda essa coisa linda que são as curvas da sua obra?! Foi de lá!!!”. Embora ele afirme categórico que é ateu e que não acredita em Deus. Mas Deus acredita tanto nele que ele está aí,  com quase cento e três anos, ainda vivendo e trabalhando belamente.

E, gente: os camelôs cariocas estão imperdíveis!!! Eles estão vendendo DVDs de Nosso Lar,  dizendo: “Comprem Nosso Lar: você não precisa mais morrer para saber como é o céu!” Impagável! E, mais: o jornal O Globo desta semana trazia uma nota,  numa coluna social, muito pitoresca: dizia que agora, no Rio de Janeiro, não se diz mais “fulano morreu”, nem que “ fulano faleceu”. O bonito é dizer que “fulano partiu para o Nosso Lar.”!

Felizes de nós, meus amigos, se pudermos voltar um dia para lá, porque dizem os espíritos que nos acompanham aqui, aos sábados à noite, que muitos de nós viemos de lá, de Nosso Lar. E prometemos nos encontrar dentro de uma casa espírita, para, ao menos de vez em quando, sermos catucados pela nossa própria consciência.

Estamos aqui, sob a tutela, todos nós, sob a tutela absoluta e querida das almas que nos amam desde sempre e que nunca se esquecem de nós. Avançaram, mas não conseguem ser felizes, porque nós não avançamos ainda e elas precisam que estejamos lá com elas. Então façamos tudo para que isso aconteça, o mais breve o possível. Se optarmos por ficar 200, 300 anos como estacionários, ficaremos, nada nos impedirá, porque também o livre arbítrio é sagrado. Ainda que quisessem, os amigos espirituais não poderiam tomar decisões que são só nossas. Eles não podem nos tomar as mãos e nos fazer correr, quando queremos estacionar às vezes por longo tempo…

Mas não nos esqueçamos de que o dia de amanhã vem perto, como nos dizia Emmanuel, através de Chico Xavier, e, ainda que os próximos anos sejam de lutas, serão de lutas vencidas. Ainda que sejam de dores, serão de dores superadas, com certeza. Por isso também o Dr. Bezerra de Menezes, através da mediunidade de Divaldo Franco, ao final do Congresso que homenageou Chico Xavier por seus 100 anos de nascimento, nos dizia: “os outros desistirão; nós, nunca!”. Não há mensagem maior do que esta. Por isso o Cristo nos afirmou: “há muitas moradas na casa de meu Pai, e eu vou para vos preparar o lugar…”

“Ama e obterás as bênçãos do amor.”, disse Emmanuel tantas vezes através do Chico. Amemos até doer, como dizia Madre Tereza de Calcutá. E, quando sentirmos vontade de orar pelas almas suicidas, façamos isso, sem nenhum problema. Elas não se aproximarão de nós, não estarão ligadas a nós pelo sofrimento, mas agradecerão, de onde estiverem, a bênção daquele pequeno bálsamo. Oremos, mesmo que não tenhamos, na nossa família ou entre amigos, nenhum caso assim. Não deixemos de, pelo menos de vez em quando, orar por aqueles que desistiram da vida dessa forma dramática, mas que retornarão de forma talvez ainda mais dramática para recomeçar, muitas vezes do zero…

Que Jesus nos abençoe. Amanhã, sejamos abençoados nas escolhas que fizermos e mais abençoados ainda sejam aqueles a quem, pelo voto, nós dermos a possibilidade de mudar o Brasil. Que eles sejam ainda mais abençoados, porque serão os nossos escolhidos.

(a gravação desta palestra só foi possível graças à inestimável ajuda da colaboradora Maristela Rosalvos).

 

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Saulo! Saulo! Por que me persegues?

“De posse das cartas de habilitação para agir convenientemente, em cooperação com as Sinagogas de Damasco, aceitou a companhia de três

varões respeitáveis, que se ofereceram a acompanhá-lo na qualidade de servidores muito amigos.

Ao fim de três dias, a pequena caravana se deslocou de Jerusalém para a extensa planície da Síria.

Na véspera da chegada, quase a termo da viagem difícil e penosa, o moço tarsense sentia agravarem-se as recordações amargas que lhe assomavam constantes. Forças secretas impunham-lhe profundas interrogações. Passava em revista os primeiros sonhos da juventude. Sua alma desdobrava-se em perguntas atrozes. Desde a adolescência que encarecia a paz interior: tinha sede de estabilidade para realizar a sua carreira. Onde encontrar aquela serenidade, que, tão cedo, fora objeto das suas cogitações mais íntimas? Os mestres de Israel preconizavam, para isso, a observância integral da Lei. Mais que tudo, havia ele guardado os seus princípios. Desde os impulsos iniciais da juventude, abominava o pecado. Consagrara-se ao ideal de servir a Deus com todas as suas forças. Não hesitara na execução de tudo que considerava dever, ante as ações mais violentas e rudes. Se era incontestável que tinha inúmeros admiradores e amigos, tinha igualmente poderosos adversários, graças ao seu caráter inflexível no cumprimento das obrigações que considerava sagradas. Onde, então, a paz espiritual que tanto almejava nos esforços comuns? Por mais energias que despendesse, via-se como um laboratório de inquietações dolorosas e profundas. Sua vida assinalava-se por idéias poderosas, mas, no seu íntimo, lutava com antagonismos irreconciliáveis. As noções da Lei de Moisés pareciam não lhe bastar à sede devoradora. Os enigmas do destino empolgavam-lhe a mente. O mistério da dor e dos destinos diferenciais crivava-o de enigmas insolúveis e sombrias interrogações. Entretanto, aqueles adeptos do carpinteiro crucificado ostentavam uma serenidade desconhecida! A alegação de ignorância dos problemas mais graves da vida não prevalecia no caso, pois Estevão era uma inteligência poderosa e mostrara, ao morrer, uma paz impressionante, acompanhada de valores espirituais que infundiam assombro.

Por mais que os companheiros lhe chamassem a atenção para os primeiros quadros de Damasco, que se desenhavam ao longe, Saulo não

conseguia forrar-se ao solilóquio sombrio. Parecia não ver os camelos resignados, que se arrastavam pesadamente sob o sol de brasas, a pino, do meio-dia. Embalde foi convidado à refeição. Detendo-se por minutos num pequeno oásis delicioso, esperou que terminasse o leve repasto dos companheiros e prosseguiu na marcha, absorvido pela intensidade dos pensamentos íntimos.

Ele próprio não saberia explicar o que se passava. Suas reminiscências atingiam os períodos da primeira infância. Todo o seu passado laborioso

aclarava-se, nitidamente, naquele exame introspectivo. Dentre todas as figuras familiares, a lembrança de Estevão e de Abigail destacava-se, como a solicitá-lo para mais fortes interrogações. Por que haviam adquirido, os dois irmãos de Corinto, tal ascendência em todos os problemas do seu ego? Por que esperava Abigail através de todas as estradas da mocidade, na idealização de uma vida pura? Recordava os amigos mais eminentes, e em nenhum deles encontrou qualidades morais semelhantes às daquele jovem pregador do “Caminho”, que afrontara a sua autoridade político-religiosa, diante de Jerusalém em peso, desdenhando a humilhação e a morte, para morrer depois, abençoando-lhe as resoluções iníquas e implacáveis. Que força os unira nos labirintos do mundo, para que o seu coração nunca mais os esquecesse? A verdade dolorosa é que se encontrava sem paz interior, não obstante a conquista e gozo de todas as prerrogativas e privilégios, entre os vultos mais destacados da sua raça.

Enfileirava, no pensamento, as jovens que havia conhecido no transcurso da vida, as afeiçoadas da infância, e em nenhuma podia encontrar as mesmas características de Abigail, que lhe adivinhava os mais recônditos desejos.

Atormentado pelas indagações profundas que lhe assoberbavam a mente, pareceu despertar de um grande pesadelo. Devia ser meio-dia. Muito distante ainda, a paisagem de Damasco apresentava os seus contornos: pomares espessos, cúpulas cinzentas que se esboçavam ao longe. Bem montado, evidenciando o aprumo de um homem habituado aos prazeres do esporte, Saulo ia à frente, em atitude dominadora.

Em dado instante, todavia, quando mal despertara das angustiosas cogitações, sente-se envolvido por luzes diferentes da tonalidade solar. Tem a

impressão de que o ar se fende como uma cortina, sob pressão invisível e poderosa. Intimamente, considera-se presa de inesperada vertigem após o esforço mental, persistente e doloroso. Quer voltar-se, pedir o socorro dos companheiros, mas não os vê, apesar da possibilidade de suplicar o auxílio.

— Jacob!… Demétrio!… Socorram-me!… — grita desesperadamente.

Mas a confusão dos sentidos lhe tira a noção de equilíbrio e tomba do animal, ao desamparo, sobre a areia ardente. A visão, no entanto, parece

dilatar-se ao infinito. Outra luz lhe banha os olhos deslumbrados, e no caminho, que a atmosfera rasgada lhe desvenda, vê surgir a figura de um homem de majestática beleza, dando-lhe a impressão de que descia do céu ao seu encontro. Sua túnica era feita de pontos luminosos, os cabelos tocavam nos ombros, à nazarena, os olhos magnéticos, imanados de simpatia e de amor, iluminando a fisionomia grave e terna, onde pairava uma divina tristeza. O doutor de Tarso contemplava-o com espanto profundo, e foi quando, numa inflexão de voz inesquecível, o desconhecido se fez ouvir:

— Saulo!… Saulo!… por que me persegues?

O moço tarsense não sabia que estava instintiva-mente de joelhos. Sem poder definir o que se passava, comprimiu o coração numa atitude desesperada. Incoercível sentimento de veneração apossou-se inteiramente dele. Que significava aquilo? De quem o vulto divino que entrevia no painel do firmamento aberto e cuja presença lhe inundava o coração precípite de emoções desconhecidas?

Enquanto os companheiros cercavam o jovem genuflexo, sem nada ouvirem nem verem, não obstante haverem percebido, a princípio, uma grande luz no alto, Saulo interrogava em voz trêmula e receosa:

— Quem sois vós, Senhor?

Aureolado de uma luz balsâmica e num tom de inconcebível doçura, o Senhor respondeu:

— Eu sou Jesus!…

Então, viu-se o orgulhoso e inflexível doutor da Lei curvar-se para o solo, em pranto convulsivo. Dir-se-ia que o apaixonado rabino de Jerusalém fora ferido de morte, experimentando num momento a derrocada de todos os princípios que lhe conformaram o espírito e o nortearam, até então, na vida. Diante dos olhos tinha, agora, e assim, aquele Cristo magnânimo e incompreendido! Os pregadores do “Caminho” não estavam iludidos! A palavra de Estevão era a verdade pura! A crença de Abigail era a senda real. Aquele era o Messias! A história maravilhosa da sua ressurreição não era um recurso lendário para fortificar as energias do povo. Sim, ele, Saulo, via-o ali no esplendor de suas glórias divinas!

E que amor deveria animar-lhe o coração cheio de augusta misericórdia, para vir encontrá-lo nas estradas desertas, a ele, Saulo, que se arvorara em perseguidor implacável dos discípulos mais fiéis!. .. Na expressão de sinceridade da sua alma ardente, considerou tudo isso na fugacidade de um minuto. Experimentou invencível vergonha do seu passado cruel. Uma torrente de lágrimas impetuosas lavava-lhe o coração. Quis falar, penitenciar-se, clamar suas infindas desilusões, protestar fidelidade e dedicação ao Messias de Nazaré, mas a contrição sincera do espírito arrependido e dilacerado embargava-lhe a voz.

Foi quando notou que Jesus se aproximava e, contemplando-o carinhosamente, o Mestre tocou-lhe os ombros com ternura, dizendo com inflexão paternal:

— Não recalcitres contra os aguilhões!…

Saulo compreendeu. Desde o primeiro encontro com Estevão, forças profundas o compeliam a cada momento, e em qualquer parte, à meditação dos novos ensinamentos. O Cristo chamara-o por todos os meios e de todos os modos.

Sem que pudessem entender a grandeza divina daquele instante, os companheiros de viagem viram-no chorar mais copiosamente. O moço de Tarso soluçava. Ante a expressão doce e persuasiva do Messias Nazareno, considerava o tempo perdido em caminhos escabrosos e ingratos. Doravante necessitava reformar o patrimônio dos pensamentos mais íntimos; a Visão de Jesus ressuscitado, aos seus olhos mortais, renovava-lhe integralmente as concepções religiosas. Certo, o Salvador apiedara-se do seu coração leal e sincero, consagrado ao serviço da Lei, e descera da sua glória estendendo-lhe as mãos divinas. Ele, Saulo, era a ovelha perdida no resvaladouro das teorias escaldantes e destruidoras. Jesus era o Pastor amigo que se dignava fechar os olhos para os espinheiros ingratos, a fim de salvá-lo carinhosamente. Num ápice, o jovem rabino considerou a extensão daquele gesto de amor. As lágrimas brotaram-lhe do coração amargurado, como a linfa pura, de uma fonte desconhecida. Ali mesmo, no santuário augusto do espírito, fez o protesto de entregar-se a Jesus para sempre. Recordou, de súbito, as provações rígidas e dolorosas. A idéia de um lar morrera com Abigail. Sentia-se só e acabrunhado. Doravante, porém, entregar-se-ia ao Cristo, como simples escravo do seu amor.

E tudo envidaria para provar-lhe que sabia compreender o seu sacrifício, amparando-o na senda escura das iniqüidades humanas, naquele instante decisivo do seu destino. Banhado em pranto, como nunca lhe acontecera na vida, fez, ali mesmo, sob o olhar assombrado dos companheiros e ao calor escaldante do meio-dia, a sua primeira profissão de fé.

— Senhor, que quereis que eu faça?

Aquela alma resoluta, mesmo no transe de uma capitulação incondicional, humilhada e ferida em seus princípios mais estimáveis, dava mostras de sua nobreza e lealdade.

Encontrando a revelação maior, em face do amor que Jesus lhe demonstrava solícito, Saulo de Tarso não escolhe tarefas para servi-lo, na renovação de seus esforços de homem.

Entregando-se-lhe de alma e corpo, como se fora ínfimo servo, interroga com humildade o que desejava o Mestre da sua cooperação.

Foi aí que Jesus, contemplando-o mais amorosamente e dando-lhe a entender a necessidade de os homens se harmonizarem no trabalho comum

da edificação de todos, no amor universal, em seu nome, esclareceu generosamente:

— Levanta-te, Saulo! Entra na cidade e lá te será dito o que te convém fazer!..”

Trecho extraído do livro “Paulo e Estevão” – ditado por Emmanuel a Chico Xavier


Madalena

“Disse-lhe Jesus: Maria! — Ela, voltando-se, disse-lhe: Mestre!” –

(JOÃO, capítulo 20, versículo 16.)

 

Dos fatos mais significativos do Evangelho, a primeira visita de Jesus, na ressurreição, é daqueles que convidam à meditação substanciosa e acurada.

Por que razões profundas deixaria o Divino Mestre tantas figuras mais próximas de sua vida para surgir aos olhos de Madalena, em primeiro lugar?

Somos naturalmente compelidos a indagar por que não teria aparecido, antes, ao coração abnegado e amoroso que lhe servira de Mãe ou aos discípulos amados…

Entretanto, o gesto de Jesus é profundamente simbólico em sua essência divina.

Dentre os vultos da Boa Nova, ninguém fez tanta violência a si mesmo, para seguir o Salvador, como a inesquecível obsidiada de Magdala. Nem mesmo “morta” nas sensações que operam a paralisia da alma; entretanto, bastou o encontro com o Cristo para abandonar tudo e seguir-lhe os passos, fiel até ao fim, nos atos de negação de si própria e na firme resolução de tomar a cruz que lhe competia no calvário redentor de sua existência angustiosa.

É compreensível que muitos estudantes investiguem a razão pela qual não apareceu o Mestre, primeiramente, a Pedro ou a João, à sua Mãe ou aos amigos. Todavia, é igualmente razoável reconhecermos que, com o seu gesto inesquecível, Jesus ratificou a lição de que a sua doutrina será, para todos os aprendizes e seguidores, o código de ouro das vidas transformadas para a glória do bem. E ninguém, como Maria de Magdala, houvera transformado a sua, à luz do Evangelho redentor.

 

Mensagem ditada por Emmanuel – Psicografia de Chico Xavier – Em “Caminho, Verdade e Vida” FEB



Joanna de Ângelis

Divaldo Franco proferia palestras no México, em 1960, num Congresso Pan-Americano de Espiritismo. Em sua última conferência, chamou-lhe a atenção um jovem que gravava a palestra com muito interesse. Joanna de Ângelis explica a Divaldo que se tratava de alguém que fazia parte da família espiritual dela e que o médium pedisse ao jovem para levá-lo a San Miguel Nepantla, localidade situada a 80km da Cidade do México.

O jovem engenheiro Ignacio Dominguez López, convidado por Divaldo, prontificou-se a levá-lo até lá. Conduzidos pela Mentora Espiritual, chegaram ao lugarejo onde havia uma propriedade tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. Ruínas indicavam a antiga construção dedicada a “Sóror Juana Inés de la Cruz”, considerada grande poetisa de língua hispânica, a primeira feminista de fala espanhola. Na parede da casa lia-se um poema de sua autoria, junto ao qual Divaldo fez questão de ser fotografado com os demais companheiros. Numa dessas fotos, para surpresa de todos, aparece a imagem de Joanna de Ângelis.

A Mentora pede a Divaldo que revele a Ignacio que ela fora, em sua penúltima encarnação, Sóror Juana Inés de la Cruz. O jovem, então, leva Divaldo ao Monastério de São Jerônimo onde ela desencarnou. Lá, a Mentora contou mais detalhes sobre aquela existência, inclusive dizendo que Sóror Juana era seu nome religioso, pois na verdade se chamava Juana de Asbaje.

No sesquicentenário da Independência do Brasil, Joanna disse a Divaldo: “Tenho uma notícia a dar-te. Na minha última reencarnação participei das lutas libertadoras do Brasil na Bahia. Eu vivia aqui mesmo, em Salvador, no Convento da Lapa e me chamava Joana Angélica de Jesus. Vai até lá, que eu quero relatar-te como foi o acontecimento”. Divaldo atendeu a sugestão, ela se apresentou com a aparência da época, contou alguns detalhes interessantes e ditou uma mensagem para as comemorações da Independência da Bahia.

Em 1978, Divaldo estava pela terceira vez em Roma, e, dessa vez, em companhia de Nilson de Souza Pereira. Joanna conduziu-os ao Coliseu e descreveu pormenores da vida dos cristãos primitivos, apontando lugares célebres, dentre eles o local exato onde Joana de Cusa, juntamente com o seu filho, haviam sido queimados vivos. Falou a respeito da mártir com tanta riqueza de detalhes que levou o médium a suspeitar que “Joanna de Ângelis” fosse Joana de Cusa. Por coincidência, a Mentora confirmou a suspeita na mesma hora em que, no ano de 68 d.C., acontecera o martírio de Joana, de seu filho e de mais quinhentos cristãos que tiveram seus corpos queimados juntos, de tal modo que as chamas iluminaram a cidade.

Do livro A Veneranda Joanna de Ângelis, de autoria de Divaldo Pereira Franco e Celeste Santos, da Livraria Espírita Alvorada Editora/ LEAL.


André Luiz – Mensagens de Luz – Áudio Vol. 1


Yvonne do Amaral Pereira

Vídeo biografia sobre a médium Yvonne do Amaral Pereira, transmitido no Programa Terceira Revelação em 2007.

Vídeo produzido pela Federação Espírita Brasileira – FEB e o Conselho Espírita Internacional – CEI.


Léon Denis

Nascimento.: Foug, França – 1846 – Falecimento: Tours, França – 1927

Léon Denis (lê-se Dení) nasceu num lugarejo chamado Foug, situado nos arredores de Toul, na França, em 01/01/1846. Sua casa era humilde, assim como os pais Josephine (que era materialista) e Ana Lúcia Denis (que era espírita).

Cedo conheceu, por necessidade, os trabalhos manuais e os pesados encargos da família.

Desde os seus primeiros passos neste mundo, sentiu que os amigos invisíveis o auxiliavam. Ao invés de participar de brincadeiras próprias da juventude, procurava instruir-se o mais possível. Lia obras sérias, conseguindo, assim com esforço próprio desenvolver sua inteligência. Era um autodidata sério e competente.

Jamais desperdiçou um minuto sequer de seu tempo, com distrações frívolas, às quais a maior parte dos homens recorre para matar as horas.

Com 12 anos concluiu o curso primário, e a situação modesta de sua família não lhe permitiu grandes estudos. Desde cedo tinha problemas com sua saúde física – seus olhos principalmente.

Tinha 16 anos quando salientou-se como um dos melhores oradores e dos mais ardentes propagandistas.

Com 18 anos tornou-se representante comercial, o que o obrigava a viajar constantemente, e isto até quase envelhecer.

Denis adorava a música e sempre que podia assistia a uma ópera ou concerto. Gostava de dedilhar, ao piano, rias conhecidas, de tirar acordes para seu próprio devaneio.
Não fumava, era quase exclusivamente vegetariano e não fazia uso de bebidas fermentadas. Encontrava na água a bebida ideal.

Era seu hábito olhar, com interesse, para os livros expostos nas livrarias. Um dia, ainda com 18 anos, o chamado acaso fez com que sua atenção fosse despertada para uma obra de título inusitado. Esse livro era o Livro dos Espíritos de Allan Kardec.

Dispondo do dinheiro necessário, comprou-o e, recolhendo-se imediatamente ao lar, entregou-se com avidez à leitura. O próprio Denis falou: Nele encontrei a solução clara, completa, lógica, acerca do problema universal. Minha convicção tornou-se firme.

A teoria espírita dissipou minha indiferença e minhas dúvidas . Seu espírito, nessa hora, sentiu-se sacudido em face dos compromissos assumidos no Espaço, para iniciar, em breve, o trabalho de propagação das verdades kardequianas.

Como tantos outros – disse ele -, procurava provas, fatos precisos, de modo a apoiar minha fé, mas esses fatos demoraram muito a vir. A princípio insignificantes, contraditórios, mesclados de fraudes e mistificações, que não me satisfizeram, a ponto de, por vezes, pensar em não mais prosseguir em minhas investigações, mas, sustentado, como estava, por uma teoria sólida e de princípios elevados, não desanimei. Parece que o Invisível deseja experimentar-nos, medir nosso grau de perseverança, exigir certa maturidade de espírito antes de entregar-nos a seus segredos.

Encontrava-se em seus trabalhos de experimentações, quando importante acontecimento se verificou em sua vida. Allan Kardec viera passar alguns dias na pacata cidade de Tours, com seus amigos todos os espíritas turenses foram convidados a recebê-lo e saudá-lo.

Em 1880, pelas cidades e vilas que percorria, por força de seus afazeres, pronunciava conferências e fundava círculos e bibliotecas populares. É incalculável o número de conferências por ele proferidas na França, no propósito de propagar a Liga de Ensino, fundada por Jean Macé.

O ano de 1882 marca, em realidade, o início de seu apostolado, no qual teve que enfrentar sucessivos obstáculos: o materialismo e o positivismo que olham para o Espiritismo com ironia e risadas os crentes das demais correntes religiosas que não hesitam em se aliar com os ateus, para ridicularizá-lo e enfraquecê-lo. Léon Denis, porém, como bom paladino, enfrenta a tempestade. Os companheiros invisíveis colocam-se ao seu lado para encorajá-lo e exortá-lo à luta.

Coragem, amigo, diz-lhe o Espírito de Jeanne, estaremos sempre contigo para te sustentar e inspirar. Jamais estarás só. Meios ser-te-ão dados, em tempo, para bem cumprires a tua obra.
Em 2 de novembro de 1882, dia dos Mortos, que um evento de capital importância se produziu e sua vida: a manifestação, pela primeira vez, daquele Espírito que, durante meio século, havia de ser seu guia, seu melhor amigo, seu pai espiritual – Jerónimo de Praga -, e que lhe disse: Vai, meu filho, pela estrada aberta diante de ti caminharei atrás de ti para te sustentar .

E como Léon Denis indagasse se seu estado de saúde o permitiria estar à altura da tarefa, recebeu esta outra afirmativa: Coragem, a recompensa ser mais bela.

A partir de 1884, achou conveniente fazer palestras visando à maior difusão das idéias espíritas. Escreveu, em 1885, o trabalho O Porque da Vida em que explica com nitidez e simplicidade o que é o Espiritismo.

Em 1892, recebeu um convite da Duquesa de Pomar, para falar de Espiritismo em sua residência, numa dessas manhãs célebres, em que se reunia quase toda Paris. Ele ficou indeciso, temeroso. Depois de muito meditar, pesando as responsabilidades, aceitou o convite.

O êxito de seu livro Depois da Morte situara-o como escritor de primeira ordem. Os grandes jornais e revistas ecléticas o solicitavam as tiragens sucessivas desse livro esgotavam-se rapidamente.
Eis a notícia publicada por Le Journal , de Paris, acerca da reunião na casa da duquesa: A reunião de ontem, foi uma das mais elegantes, ouvindo-se a conferência de Léon Denis sobre a Doutrina Espírita. De uma eloquência muito literária, o orador soube encantar o numeroso auditório, falando-lhe do destino da alma, que pode, diz ele, reencarnar até sua perfeita depuração. Ele possui a alma de um Bossuet, soube criar um entusiasmo espiritualista.

A principal obra literária de Denis foi a concernente ao Espiritismo, mas escreveu, outrossim, segundo o testemunho de Henri Sausse, várias outras, como: Tunísia, Progresso, Ilha de Sardenha, etc.

A partir de 1910, a visão de Léon Denis foi, dia-a-dia, enfraquecendo-se. A operação a que se submeteu, dois anos antes, não lhe proporcionara nenhuma melhora. Suportava, com calma e resignação, a marcha implacável desse mal que o castigava desde a juventude. Tudo aceitava com estoicismo e resignação. Jamais o viram queixar-se. Todavia, bem podemos avaliar quão grande lhe devia ser o sofrimento.

Mantinha volumosa correspondência. Jamais se aborrecia, amava a juventude, a alegria da alma. Era inimigo da tristeza.

O mal físico, para ele, devia ser bem menor do que a angústia que experimentava pelo fato de não mais poder manejar a pena. Secretárias ocasionais a substituíam nesse ofício no entanto a grande dificuldade para Denis consistia em rever e corrigir as novas edições de seus livros e de seus escritos. Graças, porém, ao seu espírito de ordem, à sua incomparável memória, superava todos esses contratempos sem molestar ou importunar os amigos.

Depois da morte de sua genitora, uma empregada cuidava de sua pequena habitação. Ele só exigia uma coisa: a do absoluto respeito às suas numerosas notas manuscritas, as quais ele arrumava com meticulosa precaução. E foi justamente por causa dessa sua velha mania que a Duquesa de Pomar o denominara de o homem dos pequenos papéis.

Em 1911, após despender não pequeno esforço no preparo da nova edição de O Problema do Ser, do Destino e da Dor , caiu gravemente enfermo. O tratamento enérgico de seu médico, para a pneumonia, pô-lo de pé em curto lapso de tempo.

Grande e profunda dor estava para ele reservada. Veio a guerra de 1914 e seu espírito se condoía ao ver partir para o front a maioria de seus amigos.

Léon padecia, então, de uma doença intestinal e estava parcialmente cego.

Pela incorporação, seus amigos do Espaço e, entre eles, um Espírito eminente, comunicavam-lhe, de tempos em tempos, suas opiniões sobre essa terrível guerra, considerada, em seus dois aspectos, visível e oculto.

Essas práticas levaram-no a escrever certo número de artigos, por ele publicados na Revue Spirite , na Revue Suisse des Sciences Psychiquesó e no Echo Fid, todo o seu grande amor pela terra em que nasceu, dentro da lei de causa e efeito.

Quando a guerra aproximava-se de seu fim, a Revue Spirite passou a publicar, em todos os seus números, artigos de Léon Denis.

Após a guerra de 1914, aprendeu braile, o que o permitiu ficar atualizado e fixar sobre o papel, por meio de grille (impressão em braile), os elementos de capítulos ou artigos que lhe vinham ao espírito, pois, já nesta época de sua vida, estava, por assim dizer, quase cego.

Em 1915 iniciava ele nova série de artigos repassados de poesia profunda e serena, sobre a voz das coisas , preconizando o retorno à natureza.
Nesta época uma forte vento soprava contra e kardequianismo. O fenomenismo metapsiquista espalhava, aos quatro ventos, a doutrina do filosófico puro. O Sr. P. Heuzé fazia muito barulho através de L´Opinion , com suas entrevistas e comentários tendenciosos. Afirmava, prematuramente, que, à medida que a metapsíquica fosse avançando, o Espiritismo, iria, pari passu, perdendo terreno. Sua profecia, no entanto, ainda não se realizou.

Após a vigorosa resposta do Sr. Jean Meyer, pela Revue Spirite , Léon Denis, por sua vez, entrou na discussão, na qualidade de presidente de honra da União Espírita Francesa, em carta endereçada ao Matin , na qual estabelecia, com admirável nitidez, a diferença existente entre o Espiritismo e o Metapsiquismo.

A partir desse momento, Léon Denis teve que exercer grande atividade jornalística para responder às críticas e ataques de altos membros da Igreja Católica, saindo-se, como era de esperar-se, de maneira brilhante.

Em março de 1927, com 81 anos de idade, terminara o manuscrito que intitulou: O Gênio Céltico e o Mundo Invisível , e neste mesmo mês a Revue Spirite publicava o seu derradeiro artigo.

Terça-feira, 12 de março de 1927, pelas 13 horas, respirava Denis com grande dificuldade a pneumonia o atacava outra vez. A vida parecia abandoná-lo, mas seu estado de lucidez era perfeito. Suas últimas palavras, pronunciadas com extraordinária calma, mas com muita dificuldade, foram dirigidas à empregada Georgette: É preciso terminar, resumir e… concluir . (fazia alusão ao prefácio da nova edição biográfica de Kardec). Neste exato momento, faltaram-lhe completamente as forças para que pudesse articular outras palavras. As 21:00 horas seu espírito alou-se. Seu semblante parecia ainda em êxtase.
As cerimônias fúnebres realizaram-se a 16 de abril. A seu pedido, o enterro foi modesto, sem ofício de qualquer igreja confessional. está sepultado no cemitério de La Salle, em Tours.

Texto elaborado por José Basílio
Baseado no livro Páginas de Léon Denis
Autor: Sylvio Brito Soares – Ed. FEB – 2º Edição – 1984.

 

Obras de Léon Denis

O Espiritismo na Arte

O Porquê da Vida

Depois da Morte

O Grande Enigma

Cristianismo e Espiritismo

No Invisível

O Problema do Ser, do Destino e da Dor

O gênio celta e o mundo invisível

Provas experimentais da sobrevivência

Socialismo e Espiritismo

Joana d’Arc médium


Maria de Magdala – Uma história de Redenção

Jesus almoçava na casa de Simão, rico fariseu e famoso por recepcionar pessoas ilustres.

Quase no fim do banquete ouviu-se gritos e vozes em alternação.

Era Maria de Magdala sendo impedida de chegar onde Ele estava… Ela olhou em derredor, como se procurasse alguém, e semi-enlouquecida, arrojou-se aos pés do Rabi.

Simão estava estupefado! Conhecia aquela mulher! Seu lar honrado acolhia uma mulher de má vida! Desejou expulsá-la. Intentou mesmo fazê-lo. Temeu, porém. Conhecia a coragem dela, a sua audácia, pois que se atrevera a chegar até alí…

Maria, no entanto, apenas via o Mestre, sentia-se esperançada, embora recém-saída do pantanal.

Refaria os caminhos. Lutaria!

As lágrimas saltavam-lhe os olhos e caíam sobre os pés dEle. Enxugava-os com a basta cabeleira. Quebrou o gargalo do vaso de alabastro que conduzia e derramou o ungüento nos pés do Rabi, balsamizando-os com piedoso carinho. O perfume de rara essência invadiu o recinto e ela prosseguiu repetindo o generoso gesto.

Ele não dizia nada, como se nada sentisse.

O almoço foi encerrado friamente. Os demais convidados faziam questão de não ocultar o falso constrangimento.

Entre dentes e irado, Simão resmungava:

*”- Se este fosse profeta bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora”.

Jesus relanceou tranquilamente os olhos muito puros, e com serena entonação de voz, indagou:

“- Simão! Uma coisa tenho a dizer-te”.

“- Dize-a, Mestre”.

“- Um certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos e o outro cinquenta dinares. Não tendo eles com que pagar a dívida, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais?”

Simão sorriu pela primeira vez. Era astuto, hábil nos negócios. Instado à conversação direta, respondeu com alegria:

*”- Tenho para mim que é aquele à quem mais perdoou”.

“- Julgaste bem”.

O Rabi dirigiu o olhar à mulher sofredora e inquiriu Simão, outra vez:

*”- Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e tu não me deste água para os pés; mas esta mos regou com lágrimas e mos enxugou com os seus cabelos. Tu não me deste o ósculo, mas esta, desde que entrou, não cessa de me beijar os pés. Tu não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com ungüento… Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado, pouco ama”.

Simão estava estarrecido. Não compreendia aquelas palavras claras, talvez pelo impacto das suas desordenadas emoções, onde arrogante e hipócrita, cria ser melhor e mais merecedor que a pecadora que lhe invadira a casa descaradamente.

Abriu desmesuradamente os olhos e fitou o Rabi.

O Mestre pôs-se de pé e oferecendo as mãos à pecadora, falou com doçura:

*”- Os teus pecados te são perdoados… vai-te em paz!”

Ela se levantara de um salto, exuberante de felicidade, e saiu como chegara: a correr.

Desapareceu de Magdala.

Todas as tardes, porém, na multidão, ajudando crianças enfermas, oferecendo olhos à cegos e mãos a trôpegos, arrependida e ansiosa pela própria renovação total, pôs-se a seguir Jesus de cidade em cidade, por onde Ele fosse…

Após a partida dEle, os próprios apóstolos lhe desprezaram. Deles ouviu frases de sarcasmo e zombaria pela sua antiga condição. Solitária e com a alma bordejando de amor, pôs-se a serviço no Vale dos Leprosos, o único lugar onde encontrou abrigo e carinho. Viveu entre eles, pregando o Evangelho e balsamizando suas feridas, por 30 anos, quando contraiu a doença e retirou-se da matéria, com o corpo atacado pela lepra, porém angelicalmente renovada e espiritualmente linda, sendo recebida pelo próprio Mestre.

De todos os personagens do Evangelho, Maria de Magdala foi aquela que conseguiu superar-se mais, diante da mensagem renovadora e amorosa do Cristo, tendo sempre a lembrança da frase que ouviu dEle, quando O viu pela primeira vez: “Há flores perfumadas e de brancura imaculada que espalham aroma sobre o lodo que lhes segura as raízes”.

*Lucas (VII – 36 à 50).

Observação: O espírito que animou a figura imortalizada nos 4 Evangelhos é estudado em inúmeras obras espíritas e, séculos depois, reencarnou como Amélia Rodrigues, conhecida personagem brasileira que, já desencarnada, ditou diversas obras a Divaldo P. Franco (Trigo de Deus, Primícias do Reino entre outras).


Meimei

Meimei

Homenageada por tantas casas espíritas, que adotam o seu nome; autora de vários livros psicografados por Chico Xavier, entre eles: “Pai Nosso”, “Amizade”, “Palavras do Coração”, “Cartilha do bem”, “Evangelho em Casa”, “Deus Aguarda”, “Mãe” etc… e, no entanto, tão pouco conhecida pelos testemunhos que teve de dar quando em vida, Irma de Castro – seu nome de batismo – foi um exemplo de resignação ante a dor, que lhe ceifou todos os prazeres que a vida poderia permitir a uma jovem cheia de sonhos e de esperanças.

Nascida em 22 de outubro de 1922, na cidade de Mateus Leme, MG, transferiu residência para Belo Horizonte em 1934, onde conheceu Arnaldo Rocha, com quem se casou aos 22 anos de idade, tornando-se então, Irma de Castro Rocha.

 O casamento durou apenas dois anos, pois veio a falecer com 24 anos de idade, por complicações generalizadas devidas a uma nefrite crônica.

 

A Origem da Doença

Durante toda a infância Meimei teve problemas em suas amígdalas. Tinha sua região glútea toda marcada por injeções. Logo após o casamento, voltou a apresentar o quadro, tendo que se submeter a uma cirurgia para extração dessas glândulas. Infelizmente, após a operação, um pequeno pedaço permaneceu em seu corpo, dando origem a todo o drama que viria a ter que enfrentar, pois o quadro complicou-se com perturbações renais que culminaram com hipertensão arterial e craniana.

 Durante os últimos dias de vida, o sofrimento aumentou. Tinha de fazer exames de urina, sangue e punções na medula, semanalmente. Segundo Arnaldo Rocha, seu marido, Meimei viveu esse período com muita resignação, humildade e paciência.

 

A Desencarnação

Os momentos finais foram muito dolorosos. Seus pulmões não resistiram, apresentando um processo de edema agudo, fazendo com que ela emitisse sangue pela boca. Seus últimos trinta minutos de vida foram de desespero e aflição. Mas, no final deste quadro, com o encerramento da vida física, seu corpo voltou a apresentar a expressão de calma que sempre a caracterizou. Meimei foi enterrada no cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte.

 

Surge Chico Xavier

Aproximadamente cinqüenta dias após a desencarnação da esposa, Arnaldo Rocha, profundamente abatido, acompanhado de seu irmão Orlando, que era espírita, descia a Av. Santos Dumont, em Belo Horizonte, quando avistou o médium Chico Xavier. Arnaldo não era espírita e nunca privara da companhia do médium até aquele momento.

Quase dez anos atrás haviam-no apresentado a ele, muito rapidamente. Ele devia ter pouco mais de doze anos. O que aconteceu ali, naquele momento, mudou completamente sua vida. E é ele mesmo quem narra o ocorrido:

“Chico olhou-me e disse: “Ora gente, é o nosso Arnaldo, está triste, magro, cheio de saudades da querida Meimei”… Afagando-me, com a ternura que lhe é própria, foi-me dizendo: “Deixe-me ver, meu filho, o retrato de nossa Meimei que você guarda na carteira.” E, dessa forma, após olhar a foto que Arnaldo lhe apresentara, Chico lhe disse: – Nossa querida princesa Meimei quer muito lhe falar!”

E, naquela noite, em uma reunião realizada em casa de amigos espíritas de Belo Horizonte, Meimei deixou sua primeira mensagem psicografada.

E, com o passar dos anos, Chico foi revelando aos amigos mais chegados que Meimei era a mesma Blandina, citada por André Luiz na obra “Entre a Terra e o Céu” (capítulos 9 e 10), que morava na cidade espiritual “Nosso Lar”; disse, também, que ela é a mesma Blandina, filha de Taciano e Helena, que Emmanuel descreve no romance “Ave Cristo”, e que viveu no terceiro século depois de Jesus.

Enfim, para concluir, resta apenas dizer que “Meimei” era um apelido carinhoso que o casal Arnando-Irma passou a usar, após a leitura de um conto chamado “Um Momento em Pequim”, de autor americano. Ambos passaram a se tratar dessa forma: “Meu Meimei”. E, segundo Arnaldo, Chico não poderia saber disso.  

 

Materialização de Meimei

“Uma noite, sentimos um delicioso perfume. Intimamente, achei que era o mesmo que Meimei costumava usar. Surpreendi-me quando percebi que o corredor ia se iluminando aos poucos, como se alguém caminhasse por ele portando uma lanterna. Subitamente, a luminosidade extinguiu-se.

Momentos depois, a sala iluminou-se novamente. No centro dela, havia como que uma estátua luminescente. Um véu cobria-lhe o rosto. Ergueu ambos os braços e, elegantemente, etereamente, o retirou, passando as mãos pela cabeça, fazendo cair uma cascata de lindos cabelos pretos, até a cintura.

Era Meimei. Olhou-me, cumprimentou-me e dirigiu-se até onde eu estava sentado. Sua roupagem era de um tecido leve e transparente. Estava linda e donairosa! Levantei-me para abraçá-la e senti o bater de seu coração espiritual.

Beijamo-nos fraternalmente e ela acariciou o meu rosto e brincou com minhas orelhas, como não podia deixar de ser. Ao elogiar sua beleza, a fragrância que emanava, a elegância dos trajes, em sua tênue feminilidade, disse-me:

– “Ora, meu Meimei, aqui também nos preocupamos com a apresentação pessoal! A ajuda aos nossos semelhantes, o trabalho fraterno fazem-nos mais belos e, afinal de contas, eu sou uma mulher! Preparei-me para você, seu moço! Não iria gostar de uma Meimei feia!”

 

Fonte: Mofra – Texto de Arnaldo Rocha. Trecho do livro “Chico Xavier – Mandato de Amor”. União Espírita Mineira – Belo Horizonte, 1992.


O retorno do Apóstolo Chico Xavier

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Quando mergulhou no corpo físico, para o ministério que deveria desenvolver, tudo eram expectativas e promessas.

Aquinhoado com incomum patrimônio de bênçãos, especialmente na área da mediunidade, Mensageiros da Luz prometeram inspirá-lo e ampará-lo durante todo o tempo em que se encontrasse na trajetória física, advertindo-o dos perigos da travessia no mar encapelado das paixões bem como das lutas que deveria travar para alcançar o porto de segurança.

Orfandade, perseguições rudes na infância, solidão e amargura estabeleceram o cerco que lhe poderia ter dificultado o avanço, porém, as providências superiores auxiliaram-no a vencer esses desafios mais rudes e a crescer interiormente no rumo do objetivo de iluminação.

Adversários do ontem que se haviam reencarnado também, crivaram-no de aflições e de crueldade durante toda a existência orgânica, mas ele conseguiu amá-los, jamais devolvendo as mesmas farpas, os espículos e o mal que lhe dirigiam.

Experimentou abandono e descrédito, necessidades de toda ordem, tentações incontáveis que lhe rondaram os passos ameaçando-lhe a integridade moral, mas não cedeu ao dinheiro, ao sexo, às projeções enganosas da sociedade, nem aos sentimentos vis.

Sempre se manteve em clima de harmonia, sintonizado com as Fontes Geradoras da Vida, de onde hauria coragem e forças para não desfalecer.

Trabalhando infatigavelmente, alargou o campo da solidariedade, e acendendo o archote da fé racional que distendia através dos incomuns testemunhos mediúnicos, iluminou vidas que se tornaram faróis e amparo para outras tantas existências.

Nunca se exaltou e jamais se entregou ao desânimo, nem mesmo quando sob o metralhar de perversas acusações, permanecendo fiel ao dever, sem apresentar defesas pessoais ou justificativas para os seus atos.

Lentamente, pelo exemplo, pela probidade e pelo esforço de herói cristão, sensibilizou o povo e os seu líderes, que passaram a amá-lo, tornou-se parâmetro do comportamento, transformando-se em pessoa de referência para as informações seguras sobre o Mundo Espiritual e os fenômenos da mediunidade.

Sua palavra doce e ungida de bondade sempre soava ensinando, direcionando e encaminhando as pessoas que o buscavam para a senda do Bem.

Em contínuo contato com o seu Anjo tutelar, nunca o decepcionou, extraviando-se na estrada do dever, mantendo disciplina e fidelidade ao compromisso assumido.

Abandonado por uns e por outros, afetos e amigos, conhecidos ou não, jamais deixou de realizar o seu compromisso para com a Vida, nunca      desertando das suas tarefas.

As enfermidades minaram-lhe as energias, mas ele as renovava através da oração e do exercício intérmino da caridade.

A claridade dos olhos diminuiu até quase apagar-se, no entanto a visão interior tornou-se mais poderosa para penetrar nos arcanos da Espiritualidade.

Nunca se escusou a ajudar, mas nunca deu trabalho a ninguém.

Seus silêncios homéricos falaram mais alto do que as discussões perturbadoras e os debates insensatos que aconteciam a sua volta e longe dele, sobre a Doutrina que esposava e os seus sublimes ensinamentos.

Tornou-se a maior antena parapsíquica do seu tempo, conseguindo viajar fora do corpo, quando parcialmente desdobrado pelo sono natural, assim como penetrar em mentes e corações para melhor ajudá-los, tanto quanto tornando-se maleável aos Espíritos que o utilizaram por quase setenta e cinco anos de devotamento e de renúncia na mediunidade luminosa.

Por isso mesmo, o seu foi mediunato incomparável.

E ao desencarnar, suave e docemente, permitindo que o corpo se aquietasse, ascendeu nos rumos do Infinito, sendo recebido por Jesus, que o acolheu com a Sua bondade, asseverando-lhe:
     – Descansa, por um pouco, meu filho, a fim de esqueceres as tristezas da Terra e desfrutares das inefáveis alegrias do reino dos Céus.

  Espírito Joanna de Ângelis PRÓXIMO

 (Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, no dia 2 de julho de 2002, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.)