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Maio2013

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Uma Palestra sobre o Suicídio

Palestra realizada na Comunhão Espírita de Brasília

Em 24 de dezembro de 1900, nasce uma criança no Rio de Janeiro chamada Yvonne Amaral Pereira. Yvonne só desencarnaria 83 anos depois, em nove de março de 1984. Foi uma médium impressionante. Ela, que era uma suicida reencarnada, trazia consigo graves compromissos com almas sofredoras.

Desde muito cedo sua mediunidade apareceu. E, embora ela não tenha chegado às culminâncias do reconhecimento público que Chico Xavier teve, na sua simplicidade foi sempre instrumento para o trabalho mediúnico junto aos espíritos sempre sofredores que se comunicavam através dela. León Denis foi o seu protetor espiritual e Victor Hugo, o grande Victor Hugo, escreveu livros maravilhosos através dela.

E, certa feita, um suicida que com ela se afinizou apresentou-se a ela, dizendo que tinha um sonho, cuja realização havia sido autorizada pela espiritualidade, de, embora alma torturada que fosse, escrever a própria história… E esse espírito, depois de procurar muitos médiuns, havia se simpatizado com Yvonne Pereira, e iria começa a escrever através dela…

Quando a obra termina de ser psicografada, Yvonne contando 26 anos, havia ali um grande  problema: estávamos no ano de 1926, e o livro falava de coisas que não existiam ainda na Terra, como de televisão e de outras tecnologias que só mais tarde surgiriam. Assim, a espiritualidade, sabendo que, se o livro fosse lançado, poderia trazer grandes problemas para  médium, que já  tinha problemas de saúde sérios que a acompanharam ao longo de toda a vida, permitiu que ela guardasse aquela obra completa por algum tempo, sem publicar. Yvonne então manteve aquela obra guardada numa gaveta, e somente no ano de 1954 a FEB lançou, com a autorização de León Denis, Memórias de um Suicida.

Memórias de um Suicida é um livro extraordinário, uma obra  que narra todo o sofrimento do escritor português Camilo Castelo Branco, que assumiu o pseudônimo de Camilo Cândido Botelho, porque o livro fora lançado em 1954, e, em 1944, portanto dez anos antes, Chico Xavier havia sido obrigado à ir Justiça, acusado pela família do jornalista Humberto de Campos, de, vamos dizer assim, fingir que recebia Humberto de Campos!…

Então, para evitar esse tormento, os editores decidiram-se pelo pseudônimo, sob protesto do espírito Camilo Castelo Branco, que desejava que seu nome completo, seu nome verdadeiro, assinasse a obra. Isso porque o desejo daquela alma era verdadeiramente contar às pessoas o seu tormento após o gesto do suicídio.

Memórias de um Suicida é um livro magnífico. Lançado em 1954, nessa época León Denis explicava à Yvonne que o autor da obra já estava, naquele momento, em processo reencarnatório e que, por isso, não poderia mais fazer a revisão do livro. Diante disso, León Denis assume essa possibilidade, e o livro é publicado. Esta obra compõe-se por três partes: Os Réprobos; Os Departamentos; e a terceira parte, a Cidade Universitária.

Lendo Memórias de um Suicida logo a gente percebe que, na espiritualidade, Camilo Castelo Branco meio que amedrontou-se, se pudermos dizer assim, no sentido de perceber que ele precisava ficar o maior tempo possível desencarnado, porque, ao mergulhar na carne, passaria de novo, pela grande prova que não soubera vivenciar: a cegueira.

Quando se viu cego, Camilo dera um tiro no próprio ouvido, porque se considerara o último dos párias. “Como é que ele, um escritor, estava cego?!?!”, pensava. “Como é que dependeria da caridade alheia, para tatear as paredes, para alimentar-se, para banhar-se?!”. Diante dessa angústia, ele optou, então, pela porta do suicídio, segundo o seu entendimento à época, o caminho mais rápido e que seria o mais confortável…

E Memórias de um Suicida começa no ponto em que ele diz: “exatamente no mês de janeiro de 1891, fui eu preso de uma região de sofrimento…”. E, ali, começa a descrever o seu calvário. Em janeiro de 1891, Camilo se mata e, para a sua surpresa, descobre que, com o seu gesto, apenas o corpo físico pereceria. Ele continuaria ainda vivendo, ainda cego, embora pudesse dar conta de tudo o que se passasse à sua volta.

Camilo sentia um cheiro insuportável de carne humana se decompondo, até perceber que estava sentado sobre o próprio túmulo, onde o seu corpo se deteriorava. E os espíritos sofredores que andavam por aquele cemitério gritavam para ele: “suicida, suicida!!!”. Ao que  ele respondia: “eu, suicida?! Nunca!!! Pois que eu não me matei, estou vivo!!! Eu tentei, é verdade, me matar, mas não consegui…”. Ele já estava desencarnado, tinha sido enterrado, já estava até sendo esquecido pelas pessoas que ele tanto amara, mas que, é óbvio,  em sua maioria consideravam que ele havia se  acovardado, que não lhes dera o valor devido, fugindo da vida e menosprezando os seus sentimentos de afeto…

Camilo então narra, nos primeiros capítulos do livro, toda a sua trajetória de desespero nas cavernas escuras onde passou a viver, totalmente dementado, enlouquecido, porque se julgava ainda imerso em um corpo de carne. Naquela caverna brutal buscava se proteger ao lado de mais quatro espíritos, portugueses como ele, de quem só bem mais tarde, quando puderam os cinco vir a ser socorridos, descobriria os respectivos nomes, assim como saberia do tempo que haviam ficado naquela região de padecimento.

Ali, naquele lugar, em determinado momento soava um tipo de sirene. Era quando chegavam  espíritos abnegados, vestidos da forma hindu, em carruagens luminosas e espécimes de padiolas, para carregar sofredores autorizados a serem tirados dali. Para a surpresa de Camilo, ele nunca era escolhido: nem ele, nem os amigos que moravam com ele.

Nesses momentos, quando os enfermeiros tinham muita dificuldade em encontrar alguém, uma voz, vinda não se sabia de onde, como se fosse um grande megafone, dizia a eles: “fulano de tal, rua tal.”. Ou: “vocês vão encontrá-lo desmaiado em tal lugar.”… E aí, imediatamente, os enfermeiros iam até onde estava aquele espírito, muitas vezes caído, recolhiam-no e o colocavam nas ambulâncias. E é óbvio que, quando as portas das ambulâncias fechavam-se, aquelas almas desesperadas subiam sobre as ambulâncias, querendo invadi-las, porque sabiam que, por enquanto, não sairiam dali. O socorro ia embora, naturalmente, e o silêncio entrecortado de gritos pavorosos voltava a reinar. E Camilo não podia compreender porque apenas determinados deles eram socorridos…

Bem mais tarde Camilo vem a entender, estudando na espiritualidade, que nós temos um cordão fluídico, semelhante ao cordão umbilical que une o bebê à mãe, que une o nosso corpo físico ao nosso perispírito. Ali está todo o tônus vital que vamos gastar, ao longo de  60, 70, 80 anos nesta vida. E esse cordão fluídico só escurecerá, luminoso que é, quando chegar a hora definitiva da nossa partida. Ele se desfaz quando as pessoas agonizam; quando morrem naturalmente; e mesmo quando lhes advém uma morte violenta, no sentido de um acidente, se para isso elas não incorreram. Então, nesses casos, ele irá se desfazendo, se despregando, naquele instante que chamamos agônico. Mas o suicida não tem tempo para isso: ele perece, faz perecer o corpo por sua própria vontade, e rasga obrigatoriamente aquele cordão fluídico, contrariando uma lei que é Divina.

Imagine uma pessoa cometer um ato desses aos 28 anos de idade e ter tônus vital para viver na Terra por 80, 85 anos ou até mais… Aquilo fica ainda luminoso, o pedaço que sobra fica pendurado na pessoa e, obviamente, torna-se uma visão terrível. A pessoa torna-se, naturalmente, uma alma sofredora, uma alma suicida, portando aquele cordão fluídico que ainda retém a energia que deveria estar sendo usada, vivenciada na Terra.

Com esses estudos é que Camilo percebe que, lá naquela região de sombra em que ele esteve, quem tinha o cordão fluídico enfim apagado é que era recolhido pelas ambulâncias. Porque somente então estava finda a energia que deveria ter sido gasta na Terra. Só quando isso aconteceu também a ele e aos seus companheiros foi que a ambulância, naquele dia, chamou  os seus nomes. E aí ele veio a descobrir o nome dos outros quatro infelizes que estiveram com ele naquela região de sofrimento atroz, onde a dor era tamanha, a raiva, o desespero eram tamanhos que eles não podiam nem se dar ao luxo de perguntarem os próprios nomes uns aos outros.

Um estado de exaustão total, dias antes do recolhimento, havia acometido aos cinco infelizes daquela caverna, e eles não conseguiam mais nem sair do lugar onde estavam. É nesse momento que vêm as ambulâncias e os recolhem. E Camilo termina toda essa descrição, dizendo: “Deus do céu, saíramos daquele inferno absoluto!…”.

E, detalhe: ali, cada suicida via, no outro, seu próprio momento tresloucado do suicídio. Então os suicidas saíam por ali, andando sem razão, procurando uma saída daquele lugar, do Vale dos Suicidas, criado pelas próprias mentes doentias daqueles que estavam ali reunidos, por afinidade, e, de repente, passava-lhes um trem desgovernado, saído fortemente da imaginação daqueles que haviam se lançado à frente deste meio de transporte, por exemplo. Ou então eram apavorados por mulheres – e Camilo cita que a maioria nessa condição eram mulheres – que passavam correndo, tomadas por labaredas de fogo em seus corpos espirituais, porque haviam se matado atiçando álcool ao corpo e aí ateado fogo em suas próprias vestes.

Então, imaginem o drama do suicida, de viver o seu próprio pesadelo e conviver com o pesadelo dos outros, à sua volta. Essas regiões, de extremo sofrimento, no mundo espiritual, existem porque um enorme número de almas sofredoras se reúne no mesmo lugar e mentaliza aquelas situações absolutamente terríveis.

E não adianta dizermos que, de alguma forma, vamos encontrar justificativas para o gesto do suicídio, porque não encontraremos. Os espíritos sempre nos lembram que o suicídio é o único gesto que, se tomado na Terra, para ele, no mundo espiritual, não conseguiremos encontrar qualquer justificativa. E, é claro, o espírito passa a vivenciar a situação de uma alma que lançou, à face de Deus, o corpo físico que era empréstimo para si mesmo… 100, 200, mais anos às vezes não são suficientes para esse resgate.

E Camilo começa a perceber que a sua volta à Terra, no futuro, seria novamente com a cegueira. Porque justamente a não aceitação da cegueira havia sido a causa do seu suicídio. E conhece também a história de Mário Sobral, um dos seus companheiros de infortúnio: quando na Terra, Mário tinha família, filhos… mas apaixonara-se perdidamente por uma mulher, num prostíbulo, chamada Eulina. Tão apaixonado tornou-se que, ao descobrir-lhe a traição, resolve matá-la e depois suicidar-se. Mário estrangula Eulina e, depois, pendura-se no teto, enforcando-se.

Quando ambos, Camilo e Mário, começam a apresentar melhoras no mundo espiritual, acolhidos no Hospital Maria de Nazaré, hospital da espiritualidade que recebe almas suicidas, principalmente aquelas desencarnadas em Portugal, Espanha, Brasil, ali, quando eles começam a melhorar, Mário diz a ele: “Camilo, eu já percebi que não vou conseguir resolver todos os meus débitos ficando aqui. Já percebi que vou ter de voltar à Terra. Mas o que mais me preocupa é que estou sentindo as minhas mãos como que dormentes, eu não estou sentindo as minhas mãos… e alguma coisa me diz que eu vou renascer sem as mãos, porque eu deixei as minhas mãos no pescoço de Eulina, a amante que confiava em mim e que eu matei…”. E não deu outra: para voltar à  Terra e resgatar os débitos, Mário Sobral vem sem as mãos. (Nem preciso dizer a vocês que aquela que o recebeu como filho foi a mesma Eulina, a ex-amante morta por ele, agora em novo corpo. Vítima ontem; hoje, protetora, porque o perdoara completamente e pôde, então, recebê-lo como filho).

Camilo não se enganara: ele percebe que, muitas vezes, as almas suicidas adiam sua necessária volta à Terra por falta de coragem. No retorno à Terra, as almas suicidas têm de tentar  estabelecer, novamente, aquele processo anterior de sofrimento, para, enfim, resgatar o  que haviam deixado de fazer.

João d’Azevedo, que Camilo vem a conhecer na espiritualidade, pessoa que tinha perdido toda a sua fortuna no baralho, percebe, no mundo espiritual, a necessidade de ajudar àqueles que estavam, na Terra, nas casas de jogos. E se sente atraído a renascer e se aproximar, de novo, de uma dessas casas, agora com outras intenções, porque ali estava o seu processo de resgate também.

Belarmino, que havia, por causa da tuberculose, aberto os próprios pulsos, por não admitir a doença e toda a desgraça que com ela adviria, ao final do século XIX, ali percebe claramente que teria de voltar à Terra tuberculoso novamente. E pede, então, para voltar na região do nordeste brasileiro, filho de mãe e pai paupérrimos, para, ainda na infância, passar por essa prova.

Diante de tantos quadros terríveis, Camilo vai ficando cada vez mais acovardado, porque ele também teria de enfrentar o seu passado… E muito sofre porque, ao retornar em visita, 17 anos após o seu suicídio, a Portugal, percebe que ninguém mais se lembrava dele. É quando começa a procurar médiuns, através dos quais poderia escrever sobre a sobrevivência da alma, mas vê o preconceito arraigado na sociedade da época: os médiuns que afirmavam tê-lo recebido eram taxados de loucos, porque “jamais o grande Camilo Castelo Branco poderia estar vivo, além da morte”…

E é em Memórias de um Suicida que Camilo nos leva a essa viagem impressionante. Lembrando-nos sempre que o gesto máximo de desistir da vida começa a partir dos nossos pequenos desânimos não solucionados. Começa nos dias em que nós vamos acumulando a  descrença, a tristeza, a insaturação das alegrias que achamos que nunca temos e que nunca teremos.

Os amigos espirituais nos têm reiteradamente transmitido mensagens chamando-nos a atenção para o fortalecimento do nosso coração, da nossa consciência, do nosso espírito aguerrido, porque dizem que os próximos quatro anos na Terra serão de enormes lutas e dificuldades para todos nós, pessoal e coletivamente. Se nós começarmos a pensar em fantasmas, se começarmos a achar que as coisas não vão dar certo, vamos sendo minados, não importando a idade física que tenhamos. Se colocarmos muitas dificuldades para aceitarmos a vida como ela é, torna-se então mais difícil que ela se torne melhor… Por isso é que livros psicografados em 1926, quanto tantos de nós ainda nem estávamos na Terra, são ainda tão fundamentais, para nos lembrar que somos nós mesmos que fazemos a nossa vida, somos nós mesmos que tomamos as nossas decisões, somos nós mesmos que resolvemos como será a nossa relação com o outro e o quanto vamos deixar que o outro nos magoe, nos infelicite, não nos respeite; ou nos ame, nos leve para cima, nos diga e nos faça crer que dias melhores virão, que nós vamos construí-los em todos os instantes da nossa existência.

Nesse contexto, as religiões são fundamentais, todas elas, porque cada um de nós, dentro da nossa maturidade específica, precisa de determinada religião. E é por isso que religião não se discute, porque cada um de nós precisa ter a sua própria convicção, que é individual e intransferível. Nós, que nos enamoramos da Doutrina Espírita, costumamos dizer aos outros que sabemos mais… E acho graça ao me lembrar de conhecido poeta, que, nos últimos anos de sua existência na Terra, enamorou-se também da Doutrina Espírita. Este poeta, curiosamente, mandou escrever em sua lápide: “agora, com certeza, eu sei mais do que todos vocês!…”.

A verdade é que a morte física nos faz de novo recuperar a memória eterna. Extraordinário pensar que todos nós fomos criados por Deus para essa beleza que às vezes mal percebemos, mas que um dia será toda nossa, a verdade da Vida Maior. E mais generoso e sábio é também  percebermos que os nossos adversários, aqueles que não nos amam, aqueles que não nos entendem, aqueles que até nos prejudicam, foram criados pelo mesmo ato divino, foram criados para a mesma destinação. E, portanto, respeitar a Deus e às forças do Bem que protegem o universo é também respeitar o outro, mesmo quando esse outro não tem o necessário equilíbrio e nem maturidade para praticar respeito. Se nós vamos acusar alguém, se vamos apontar alguém, verifiquemos se não estamos em situação igual ou até mais difícil do que aquele companheiro que estamos apontando. É básico.

Camilo vai aprendendo tudo isso pelos hospitais por onde passa, sempre internado. E percebe que, entre ele e os amigos, havia sempre uma tristeza que nunca passava, embora fossem amorosamente tutelados por grandes espíritos de luz, ali, naquela ocasião, hindus principalmente, que trabalhavam na recuperação das almas suicidas, no grande Hospital Maria de Nazaré. A própria mãe do Cristo, protetora de todas as almas sofredoras, em especial dos suicidas, dirige a plêiade imensa de almas que protege e abençoa a todos os espíritos que, por extrema infelicidade, fugiram da vida pelas próprias mãos.

E o grande autor português percebe também que aquela grande tristeza que sentiam estava relacionada ao fracasso da alma cometido, fracasso de não ter conseguido esperar até o fim, para a solução das dificuldades. E Camilo chega ao estágio, 17 anos após o seu suicídio, de já estar em condições de realizar visitas, no próprio hospital em que estava internado, àqueles que estavam chegando, recém-chegados do Vale dos Suicidas, nas mesmas condições desesperadoras em que, um dia, ele também ali chegara. E Camilo então passou a falar, a esses novos pacientes do Hospital Maria de Nazaré, com palavras amorosas, contando sua própria experiência, dizendo que ali os esperaria um novo processo de reencarnação, e que ele também passaria por isso…

E é tão delicada a recuperação do suicida que Camilo Castelo Branco chegou a uma área, do hospital, chamada manicômio. Ali, ao contrário do que se poderia imaginar, não estão pessoas enlouquecidas simplesmente, mas pessoas cristalizadas em suas próprias teorias inabaláveis sobre si mesmas. Então ali estão suicidas que afirmam, muitas vezes quase um século depois do ato que praticaram, que, não, não fizeram nada de errado… Espíritos que entram num processo absoluto de cristalização hipnótica. E ficam ali porque é preciso que, diariamente, sejam tutelados por mentores.

Nesse manicômio Camilo conhece Agenor Penalva, espírito que tinha sido socorrido há 39 anos, mas que ainda trazia consigo a nobre roupa do fidalgo espanhol que havia sido. Diariamente, um dos mentores de Agenor Penalva precisava ir até o seu quarto, naquele  manicômio, colocar uma frase do Pentateuco num caderno e dizer a ele: “meu filho, você hoje vai escrever sobre isso…”. E, muitas vezes, Agenor ficava revoltado. Dizia: “de jeito nenhum!!! O que eu estou fazendo aqui há tanto tempo?!?!…”. Ele, que se dizia vítima de toda uma situação…

E, exatamente naquele dia em que Camilo visitou o manicômio, o mentor de Agenor colocou-lhe no caderno a assertiva: “honrai a vosso pai e à vossa mãe.”. E Agenor ficou indignado: “o quê?!?! Eu vou ter de escrever sobre isso?! Logo eu, que adorava a minha mãezinha, minha mãezinha era tudo para mim!!! Eu, que jamais criei um desgosto para ela!…”. E então o mentor calmamente o conduziu: “Agenor, eu acho que você não está se lembrando… Vamos até a outra sala…”. E ali, na outra sala, colocou Agenor, sob ordens, não sob pedido, numa espécie de máquina, quando Agenor começou a gritar: “não, por favor, hoje eu não estou preparado, hoje eu não estou podendo, estou me sentindo fraco, vamos deixar para amanhã…”. Mas o mentor: “não, Agenor, você já está adiando muito a sua recuperação…”. E ali, naquela máquina,  aparece, qual fora um filme projetado à frente, cenas de como havia sido, de verdade, a relação de Agenor Penalva com a sua pobre mãe, que ele lançara à miséria absoluta.

A verdade é que nós somos aquilo que nós mesmos fazemos de nós, e, do outro lado da vida, um dia, nós vamos contar a nossa própria história, queiramos ou não. Porque, para voltarmos à Terra, e voltar à Terra ainda será necessário para nós por muito tempo, já que a Terra é o hospital-escola que nos acolhe, nós vamos ter de refazer a nossa programação, vamos ter de observar tudo o que não fizemos. Hoje isso pode nos parecer a mais absoluta tolice, mas, amanhã, do outro lado da existência, entenderemos a gravidade de todos os nossos gestos, palavras, do silêncio, dos sonhos, das mentalizações, daquilo que pensamos embora não tenhamos falado, porque pelos nossos pensamentos também seremos observados.

Por isso tudo é que Jesus afirmava: “o Pai vê o que fazes em segredo.”… E Paulo de Tarso disse  que somos acompanhados por uma nuvem de testemunhas invisíveis…

Fora da matéria, quem sabe já não teremos sido nós também obsessores, perseguidores daqueles que amávamos e que não queríamos ver felizes sem a nossa presença. Quem sabe já não tenhamos nós também sido suicidas???

E Camilo nos narra, em Memórias de um Suicida, todo esse processo de escondermo-nos de nós mesmos. E nos lembra que, tal como ele e seus amigos, muitos de nós também somos especialistas nisso: em fingir; em esquecer; em fingir que somos felizes, para não tocarmos em determinadas feridas que precisamos severamente solucionar; em fingir que respeitamos o outro, quando queremos que o outro esteja sob nossa tutela e faça somente aquilo que é conveniente e “bom” para nós…

Muitas vezes nós afirmamos que nossos filhos têm toda a liberdade, que podem fazer o que quiserem, mas, se nos contrariam, sonhando algum sonho que nós não queremos que eles sonhem, então já ficamos desesperados. Mas nossos filhos também são almas que vêm do espaço, como diz o Evangelho Segundo o Espiritismo, para progredir em nossos braços. E, não nos esqueçamos, muitas vezes suas escolhas não serão aquelas que nós pretenderíamos, por considerarmos serem as melhores.

Emmanuel dizia, através da mediunidade de Chico Xavier, que, às vezes, um pai ia procurar orientação espiritual, querendo o filho engenheiro ou médico, mas que uma enxada, nas mãos daquele filho, ensinaria muito mais!… E, é óbvio, ninguém quer isso: queremos nossos filhos brilhando, nossos filhos, se possível, com mais de uma universidade… mas, às vezes, a alma vem não para ser um doutor, mas para recuperar emocionalmente aquilo que desgastou pelo caminho em vidas em que conseguiu ser um doutor, mas não soube honrar o diploma, ou a própria profissão escolhida.

Todas essas pessoas que hoje vemos, muitas vezes pela televisão, como pessoas enlouquecidas, dementadas, assassinas, vingativas, pessoas tresloucadas que não perdoam, que roubam e que, naturalmente, muitas das vezes, não serão talvez capturadas pela justiça terrena, no mundo espiritual certamente estarão em um processo de loucura, e muitas delas não serão mais convidadas nem mesmo a habitarem a Terra.

Em sua saga, Camilo chega a um departamento, o Departamento da Reencarnação, em que os espíritos suicidas observavam, em matrizes maravilhosas sobre uma mesa, a reprodução dos corpos que tinham tido na Terra, quando se mataram. E, ao lado dessa imagem, num monturo, como tinha ficado o corpo, depois do gesto do suicídio.

Sofrimento por demais atroz viviam aqueles que se haviam lançado à frente de carros, de trens, de carruagens, aqueles que se haviam lançado de prédios, abismos, e ficavam completamente retalhados, no seu perispírito também. E ali, no Departamento da Reencarnação, todos tinham de planejar sua próxima existência.

No dia em que Camilo fora a esse Departamento, justamente naquele dia, dois espíritos grandemente sofredores estavam também ali para pedirem pelos seus próprios processos reencarnatórios. E, desafio: descobriram que era preciso encontrar mães que os quisessem! E então, durante as horas da noite na Terra, durante o sono, o espíritos do Hospital Maria de Nazaré foram buscar duas jovens. Uma morava na Ilha de São Miguel, em Portugal; a outra, no nordeste brasileiro. Vocês imaginem: as duas, desdobradas, fora da matéria, foram levadas até aquele Departamento e lhes foram apresentados os dois espíritos que pediam a elas que os recebessem como filhos…

A portuguesa tinha ao seu lado, desdobrado com ela, o marido. Eram recém-casados, ela tinha somente 18 anos e, quando viu aquela alma suicida que se candidatava, logo disse: “Mas de jeito nenhum!… Eu e meu marido somos recém-casados, temos tantos sonhos, queremos um filho risonho, sadio. E, além do mais, nós moramos no meio de uma ilha: como é que o nosso primeiro filho vai ser assim, retardado?!?! Não posso.”. A outra jovem, solteira, do nordeste brasileiro, que havia sido seduzida por um rapaz que, naturalmente, nada haveria de querer  com ela, chorava copiosa, dizendo: “se eu apareço grávida, meus pais me matam!… Eu não posso receber nem uma criança sadia, quanto mais uma alma suicida…”.

E os espíritos, tranqüilos, calados, escutavam. Até que, diante da decisão das duas, de não quererem aceitar aquilo que era um convite da espiritualidade, resolvem levá-las a uma outra sala, onde, rapidamente, elas ficam sabendo o que tinham feito das duas últimas encarnações que lhes haviam sido concedidas por permissão divina… Os espíritos são sutis, não é?!

A gente esbraveja, chora, fala “eu quero fazer e acontecer”, “quero ser uma mistura de Frank Sinatra com Roberto Carlos”… não é?! Mas, que nada: Camilo nos conta que as duas jovens saíram daquela sala, naquela noite, abraçadas àquelas almas suicidas, dispostas imediatamente a recebê-las. Na pobreza, na enfermidade, na incapacidade física, iriam receber aqueles espíritos, porque elas sabiam que precisavam desse gesto de amor, para também poderem avançar.

Para a nossa surpresa, Camilo também nos conta que todos nós deixamos, no mundo espiritual, vida após vida, uma espécie de relatório, onde declaramos que nos predispomos a receber determinadas almas ao nosso lado, face as nossas dívidas de existências anteriores. Mas, quando isso acontece, no momento em que estamos aqui na Terra, no auge da nossa felicidade, da dita beleza, da alegria, da saúde, quando algo ameaça nos interceptar o caminho, nós imediatamente já blasfemamos: “Deus não existe! Pra quê que eu vou tanto à casa espírita, pra quê que eu assisto palestra e tomo passe?! Pra isso???!!!”. Isso no caso nosso, os espíritas…

E Camilo também nos recorda, na sua obra magnífica, que o afeto está intimamente relacionado à nossa saúde, à nossa capacidade de pensar com discernimento, e que a Medicina só avançará (e disse isso em 1926, hein?!) quando os médicos não nos virem mais apenas como um corpo, mas como um todo complexo. E é por isso que os amigos espirituais nos afirmam que, num distante futuro, na Terra, os médicos terão, inclusive, acesso às nossas vidas anteriores, para que possam entender, junto conosco, o porquê de situações como a de quem nunca fumou, mas traz uma enfermidade pulmonar; a situação de quem nunca provou álcool, mas tem o fígado problemático; ou a situação de quem, por exemplo, nunca está bem, ou nunca cometeu qualquer excesso, mas traz insuficiência renal inexplicável… Somos o passado em forma de presente!

E, em 1954, Yvonne veio a saber que Camilo já estava em seu processo reencarnatório. Durante 64 anos Camilo conseguira adiar a sua volta. Hoje, nos contam os amigos espirituais, ele está na Terra, é espírita e completamente cego. Camilo pediu que tivesse a possibilidade de conhecer, nesta sua vida, a Doutrina Espírita, porque, estudando, fora da matéria, percebeu que, talvez, se tivesse tido contato com essa doutrina esclarecedora, em sua encarnação  pregressa, talvez não tivesse cometido o disparate do gesto do suicídio.

Camilo, que teve a oportunidade de assistir aulas na espiritualidade com o Dr. Bezerra de Menezes e com o grande poeta Bittencourt Sampaio, nos conta da vergonha de, a todo momento, se ver colocando a mão a tapar o ouvido, no tique nervoso de tentar estancar o sangue que ele sentia como se  borbotasse  sobre ele – sangue que, na verdade, estava na sua imaginação, porque seu corpo físico já não existia há muito tempo.

Para tentar controlar esses distúrbios, Camilo e seus amigos buscavam assistir as palestras para as almas suicidas, no plano espiritual, sentando-se sobre as próprias mãos. E ele via que, como ele, que a toda hora levava a mão ao ouvido, também Mário Sobral a todo instante colocava as mãos em volta do pescoço, como a tirar o lençol com que se havia enforcado após matar Eulina. Como ambos, também Belarmino via sair dos seus pulsos o sangue que ele não conseguia estancar de forma nenhuma… Camilo e seus amigos só conseguiram se livrar desses tiques nervosos  após longos processos hipnóticos realizados pelos irmãos hindus, que coordenavam toda a recuperação das almas suicidas nas regiões da espiritualidade.

E eu me lembro que, há muitos anos, quando eu contava 17 anos, estávamos todos aqui na mesa, realizando a prece dos suicidas, quando adentrou ao recinto uma mulher desesperada. Era uma mulher desencarnada é claro. Estava envolta em chamas, enlouquecida. Ela atravessou aquela porta e chegou até aqui, à frente. Essa mulher gritava tresloucadamente, porque seu corpo estava todo dominado pelo fogo. E, naquela loucura, ela pedia que alguém jogasse água sobre ela, pelo amor de Deus, para que o fogo desaparecesse… E eu comecei a me comover, óbvio, porque via que aquele espírito estava desesperadamente pedindo socorro…

Então, eis que  sai, do meio da platéia de desencarnados, um jovem, lindíssimo, que vem até aquela moça em chamas e coloca a mão sobre a cabeça dela. Naquele momento, nós vimos sair um jato de luz safirina da mão do rapaz. Imediatamente a pobre moça grita aliviada: “água, água… vocês me ajudaram, jogando água sobre mim…”. O dr. Bezerra de Menezes, presente àquela reunião, então nos disse que aquela moça, 58 anos antes, havia matado aos quatro filhos e ateado fogo ao próprio corpo. 58 anos! E apenas naquele dia ela estava adentrando à Comunhão Espírita de Brasília e pedindo socorro,  às 18 horas de um domingo, na prece dos suicidas. Foi uma cena encantadora, porque o próprio dr. Bezerra abraçou com carinho aquela jovem, a envolveu exausta em seu colo e levou-a…

Eu, admirada com a cena e com a beleza daquele jovem que a socorrera, comentei com os presentes que eu estava impressionada com a beleza do rapaz, com a luz que irradiava dele, com a generosidade inata do seu coração, em socorrer imediatamente aquela jovem desencarnada, em sofrimento há quase 60 anos. E ele, me vendo falar sobre seu gesto, aproximou-se de mim, deu um suave sorriso e me mostrou os próprios braços: ali, a cicatriz dos pulsos cortados, há muito, muito tempo… Ele, que havia sido também alma suicida, hoje alma recuperada, iluminada, trazia ainda consigo as marcas do erro que havia outrora cometido, como a se lembrar que ninguém é infalível…

Trabalharemos sempre pela nossa recuperação, viveremos para isso, não para ocultarmos o nosso passado, mas para transformá-lo, porque fomos criados por Deus, para a beleza e perfeição que nós vamos alcançar de alguma forma, um dia. Conseguiremos, no máximo, adiar, com atitudes menos dignas e nobres, a chegada triunfal do nosso coração totalmente belo e digno à verdadeira morada de todos nós. Lá, haverá, sim, trabalho, porque nós vamos passar a ajudar aqueles que ainda estão no caminho, como hoje nos ajudam os mentores espirituais, aqueles seres que estiveram conosco, que foram nossos amigos, nossos namorados, nossos filhos, mas que, por motivos diversos à sua própria intenção, se adiantaram, foram à frente, mas que hoje não podem ser totalmente felizes, porque nós permanecemos na estrada…

Enquanto não estivermos todos unidos aos corações que mais amamos não seremos completamente felizes. É por isso que, muitas vezes, quando os relógios apontam as seis horas da tarde, muitos de nós sentem suave melancolia, ou, dependendo do nosso problema, uma tristeza grande, porque essa é a hora em que Maria, mãe de Jesus, recolhe a súplica de todas as criaturas… É a hora em que até no Vale dos Suicidas o silêncio acontece. É a hora em que, no Hospital Maria de Nazaré, todos voltam o olhar para o chão, para implorar a proteção da mãe de Jesus ao seu recomeço.

Há uma frase de um anônimo, que eu adoro, que diz assim: “ó Senhor dos grandes recomeços, aqui estou eu, mais uma vez!…”. No fundo, todos nós fazemos a mesma coisa: a cada encarnação, a cada retorno à Terra, nós somos aqueles que, à frente de Deus, dizemos: aqui estou eu, Senhor, mais uma vez, para recomeçar…

Por isso, o que nos importa se as pessoas não nos amarem como queremos?!.. O que nos importará, se as pessoas duvidarem de nós, se as pessoas nos invejarem, se não nos compreenderem, se não observarem a vida como nós observamos?! Todos nós amadureceremos, todos nós chegaremos a esse grande fanal que é a felicidade sem nenhuma mácula, e, quando lá estivermos, nós vamos querer fazer todas as criaturas felizes também.

Por isso também pensemos: as coisas da Terra são tão pequenas, são tão passageiras, e nós nos deixamos enredar por elas, ficamos totalmente amargurados, paralisados, passamos as semanas, os meses, os anos, reclamando que a vida não é aquilo que nós sonhamos quando crianças ou adolescentes, não é aquilo que pretendíamos, mas, muitas vezes, nada fazemos para nos modificar e modificar o nosso destino, não vamos em busca das grandes transformações, ficamos mesmo sem coragem para os  grandes desafios,  permanecemos com medo de encarar de frente aquilo que nós estamos adiando, muitas vezes há varias vidas, para solucionarmos.

Se quisermos, nós sempre encontraremos uma desculpa, sempre haverá uma justificativa, um “ah, eu não posso”, ou “ah, eu não tenho força”, “não é do jeito que eu queria”… e assim a vida irá passando, porque 100 anos, dizia Emmanuel, através de Chico Xavier, “é um relâmpago na eternidade…”.

Ontem, no cine-debate que realizamos à noite, no Cine Brasília, o Dr. Roberto, psiquiatra que dirige o Hospital André Luiz, em Belo Horizonte, nos contava que Chico Xavier, certa feita, recebeu uma senhora que, em grave perturbação, foi até ele e lhe disse: “Chico, eu vim te dizer uma coisa: essa história de Doutrina Espírita não serve para nada. No dia a dia não adianta!!!”. E o Chico, muito tranquilamente, lhe respondeu: “minha amiga, provavelmente você tenha toda a razão…”. A mulher ficou frustradíssima, foi embora, mas, dois anos depois, retornou ao mesmo Chico Xavier e lhe disse: “Chico, eu vim te pedir perdão: Chico, eu estava doida! Chico, Doutrina Espírita é tudo! Chico, Doutrina Espírita resolve tudo na vida da gente!…”. E aí o Chico voltou a responder: “É verdade, minha amiga: provavelmente você tenha toda a razão!”. E aí o Dr. Roberto comentou conosco: “por isso que o Chico nunca ficava doente das emoções!”. Chico Xavier tinha todos os problemas de saúde no corpo físico, mas, emocionalmente, ele era perfeito. E era perfeito também porque ele sabia que a loucura dos outros tem de ficar com os outros, não conosco…

E, às vezes, temos aqueles amigos tão queridos, amados, que nos lançam os seus xingamentos, que nos lançam toda a sua mágoa, que nos lançam a sua inveja, toda a sua desfaçatez… e, depois de tudo, saem ótimos e ainda nos dizem: “nossa! Eu adoro conversar com você! Eu fico ótimo!”. E você, ali, desmaiado; a  sua samambaia, morta; o  seu cachorro, no veterinário!!! Todo mundo pega um pedaço da carga! E, o pior, ainda tem gente que acaba se achando um “médium” daqueles, porque pegou a rebarba e agüentou firme! Mas também é preciso ter cuidado para ajudar. Porque, muitas vezes, de tanto pegar a carga emocional dos outros, e sofrer junto, chorar junto, se amargurar junto, nós podemos acabar adoecendo também da nossa emoção, da nossa vontade, do nosso desejo de sermos melhores e, consequentemente, da nossa disposição para sermos mais felizes.

Não nos esqueçamos, meus amigos, que, dia a dia, os anos vão passando – e como passam rápido! Então felizes de nós se tivermos a sabedoria de tudo aceitar para transformar, não para nos conformarmos. Porque nós precisamos nos indignar sempre com a injustiça, com as maldades, com o que não é certo. Nós devemos, sim, discutir, em sociedade, questões que afetam a todos nós e sobre as quais, muitas vezes, nós fingimos, por causa talvez da religião, que não temos “nada a ver com isso”…

Em três semanas, três bebês recém-nascidos foram encaminhados ao abrigo Nosso Lar. Foram os três lançados na rua, não se sabe por quem. O último foi achado há poucos dias, em cima do lixo, coberto de terra e completamente roxo de frio. E aí, quando ficamos sabendo de atrocidades assim, começamos a pensar sobre o que acontece com uma pessoa que é capaz de pegar um bebê recém-nascido, com cordão umbilical ainda preso ao corpo, e lançá-lo na rua, sem imaginar que uma cobra, um cachorro, um rato, vão atacar aquela criança. É de uma dureza de coração impressionante. Enquanto nós, por exemplo, não discutirmos a questão de levarmos os nossos jovens a meditarem sobre a responsabilidade de uma gravidez, geralmente precoce, nós estaremos sujeitando seres indefesos a estarem no limbo social, essa é que é a realidade.

Nesta semana faleceu o Seu João, do Centro Espírita Irmão Estêvão… Quando eu soube do desencarne desse querido amigo, logo pensei: “…mas Deus é seletivo, né?! Tem levado só quem vai ajudar lá no céu…”. Na verdade o Seu João foi um grande trabalhador da Doutrina Espírita. Empresário de sucesso, fundou  jornal e revista espíritas com o seu próprio dinheiro. E eu me lembro que ,em 1976, quando eu contava 18 anos, no final do Congresso Mundial de Jornalistas Espíritas, estávamos, meninos que éramos, caídos pelas escadas do Ginásio de Esportes, mortos de cansados, quando ele foi o único dos organizadores que veio nos erguer e nos  falar da beleza de termos apenas 18  anos mas já estarmos trabalhando pela Doutrina Espírita. Em abril deste ano, no Congresso que festejou os 100 anos do nascimento de Chico Xavier, lá estava o Seu João, nos recebendo diariamente, à frente de um batalhão de trabalhadores da Federação Espírita Brasileira que o obedeciam com amor, porque viam nele a autoridade moral de quem passa pela Terra apenas fazendo o bem e seguindo o bom exemplo de Jesus.

Se Deus quiser seremos nós também pessoas nobres assim, porque cada pessoa que parte deixa um trabalho que nós devemos dividir entre nós e passar a desempenhar. E a missão de não termos nenhuma vergonha de dizermos que somos amantes dessa doutrina maravilhosa, que nos diz que somos imortais, que voltaremos à Terra quantas vezes forem necessárias, para refazermos o nosso destino, e o destino de todas as pessoas que estiverem à nossa volta.

Vou me despedindo de vocês, assim, quase que com uma tristeza, então me recordei, para nos alegrar, de que, amanhã, domingo, o filme Nosso Lar completará quatro milhões de expectadores, o maior sucesso que o cinema brasileiro já teve! As pessoas estão brincando, dizendo: “ah, eu fiquei tão decepcionada, Mayse.” E eu pergunto: “por quê?! E elas me dizem: “porque eu descobri que, depois que eu morrer, eu vou encontrar tudo do Oscar Niemeyer do lado de lá!!!” E aí eu também brinco, dizendo: “mas de onde você acha que Oscar Niemeyer trouxe toda essa coisa linda que são as curvas da sua obra?! Foi de lá!!!”. Embora ele afirme categórico que é ateu e que não acredita em Deus. Mas Deus acredita tanto nele que ele está aí,  com quase cento e três anos, ainda vivendo e trabalhando belamente.

E, gente: os camelôs cariocas estão imperdíveis!!! Eles estão vendendo DVDs de Nosso Lar,  dizendo: “Comprem Nosso Lar: você não precisa mais morrer para saber como é o céu!” Impagável! E, mais: o jornal O Globo desta semana trazia uma nota,  numa coluna social, muito pitoresca: dizia que agora, no Rio de Janeiro, não se diz mais “fulano morreu”, nem que “ fulano faleceu”. O bonito é dizer que “fulano partiu para o Nosso Lar.”!

Felizes de nós, meus amigos, se pudermos voltar um dia para lá, porque dizem os espíritos que nos acompanham aqui, aos sábados à noite, que muitos de nós viemos de lá, de Nosso Lar. E prometemos nos encontrar dentro de uma casa espírita, para, ao menos de vez em quando, sermos catucados pela nossa própria consciência.

Estamos aqui, sob a tutela, todos nós, sob a tutela absoluta e querida das almas que nos amam desde sempre e que nunca se esquecem de nós. Avançaram, mas não conseguem ser felizes, porque nós não avançamos ainda e elas precisam que estejamos lá com elas. Então façamos tudo para que isso aconteça, o mais breve o possível. Se optarmos por ficar 200, 300 anos como estacionários, ficaremos, nada nos impedirá, porque também o livre arbítrio é sagrado. Ainda que quisessem, os amigos espirituais não poderiam tomar decisões que são só nossas. Eles não podem nos tomar as mãos e nos fazer correr, quando queremos estacionar às vezes por longo tempo…

Mas não nos esqueçamos de que o dia de amanhã vem perto, como nos dizia Emmanuel, através de Chico Xavier, e, ainda que os próximos anos sejam de lutas, serão de lutas vencidas. Ainda que sejam de dores, serão de dores superadas, com certeza. Por isso também o Dr. Bezerra de Menezes, através da mediunidade de Divaldo Franco, ao final do Congresso que homenageou Chico Xavier por seus 100 anos de nascimento, nos dizia: “os outros desistirão; nós, nunca!”. Não há mensagem maior do que esta. Por isso o Cristo nos afirmou: “há muitas moradas na casa de meu Pai, e eu vou para vos preparar o lugar…”

“Ama e obterás as bênçãos do amor.”, disse Emmanuel tantas vezes através do Chico. Amemos até doer, como dizia Madre Tereza de Calcutá. E, quando sentirmos vontade de orar pelas almas suicidas, façamos isso, sem nenhum problema. Elas não se aproximarão de nós, não estarão ligadas a nós pelo sofrimento, mas agradecerão, de onde estiverem, a bênção daquele pequeno bálsamo. Oremos, mesmo que não tenhamos, na nossa família ou entre amigos, nenhum caso assim. Não deixemos de, pelo menos de vez em quando, orar por aqueles que desistiram da vida dessa forma dramática, mas que retornarão de forma talvez ainda mais dramática para recomeçar, muitas vezes do zero…

Que Jesus nos abençoe. Amanhã, sejamos abençoados nas escolhas que fizermos e mais abençoados ainda sejam aqueles a quem, pelo voto, nós dermos a possibilidade de mudar o Brasil. Que eles sejam ainda mais abençoados, porque serão os nossos escolhidos.

(a gravação desta palestra só foi possível graças à inestimável ajuda da colaboradora Maristela Rosalvos).

 


Autodesobsessão

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Se você já pode dominar a intemperança mental… 

Se esquece os próprios
constrangimentos, a fim de cultivar o 
prazer de servir… 

Se sabe cultivar o comentário infeliz, sem passá-lo adiante… 

Se vence a indisposição contra o estudo e continua, tanto quanto possível, em contato com a leitura construtiva… 

Se olvida mágoas sinceramente, mantendo um espírito compreensivo e
cordial, à frente dos ofensores… 

Se você se aceita como é, com as dificuldades e conflitos que tem, 
trabalhando com tudo aquilo que não pode modificar… 

Se persevera na execução dos seus propósitos enobrecedores, apesar de
tudo que se faça ou fale contra você… 

Se compreende que os outros têm o direito de experimentar o tipo de
felicidade a que se inclinem, como nos acontece… 

Se crê e pratica o princípio de que somente auxiliando o próximo, é que
seremos auxiliados… 

Se é capaz de sofrer e lutar na seara do bem, sem trazer o coração amargoso e intolerante… 

Então, você estará dando passos largos para libertar-se da sombra, entrando, em definitivo, no trabalho da autodesobsessão. 

André Luiz

Psicografia de Chico Xavier. Livro: Passos da Vida


A Marcha

“Importa, porém; caminhar hoje, amanhã e no dia seguinte”. – Jesus. (Lucas, 13:13)

Importa seguir sempre, em busca da edificação espiritual definitiva. Indispensável caminhar, vencendo obstáculos e sombras,  transformando todas as dores e dificuldades em degraus de ascensão.
Traçando o seu programa, referia-se Jesus à marcha na direção de Jerusalém, onde o esperava a derradeira glorificação pelo martírio. Podemos aplicar, porém, o ensinamento às nossas experiências incessantes no roteiro da Jerusalém de nossos testemunhos redentores.
É imprescindível, todavia, esclarecer a característica dessa jornada para a aquisição dos bens eternos.
Acreditam muitos que caminhar é invadir as situações de evidência no mundo, conquistando posições de destaque transitório ou trazendo as mais vastas expressões financeiras ao circulo pessoal.
Entretanto, não é isso.
Nesse particular, os chamados “homens de rotina” talvez detenham maiores probabilidades a seu favor.
A personalidade dominante, em situações efêmeras, tem a marcha inçada de perigos, de responsabilidades complexas, de ameaças atrozes. A sensação de altura aumenta a sensação de queda.
É preciso caminhar sempre, mas a jornada compete ao Espírito eterno, no terreno das conquistas interiores.
Muitas vezes, certas criaturas que se presumem nos mais altos pontos da viagem, para a Sabedoria Divina se encontram apenas paralisadas na contemplação de fogos-fátuos.
Que ninguém se engane nas estações de falso repouso
Importa trabalhar, conhecer-se, iluminar-se e atender ao Cristo, diariamente. Para fixarmos semelhante lição em nós, temos nascido na Terra, partilhando-lhe as lutas, gastando-lhe os corpos e nela tornaremos a renascer.

Emmanuel

Francisco Cândido Xavier – Pão Nosso


A Força do Amor

 

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Aconteceu no encerramento do 3º Congresso Espírita Brasileiro, na visão dos Espíritos, relatado por Yvonne A. Pereira.

 

Amigos e irmãos, abraço-os fervorosamente.

 

Nesta oportunidade desejo compartilhar com os companheiros um fato relacionado ao suicídio que resultou numa serie de ações, desenvolvidas ao longo de 18 meses, aproximadamente, mas cujo desfecho superou todas as expectativas, mesmo as inimagináveis.

 

As regiões de sofrimento onde vivem os suicidas, de todas as categorias, são inúmeras e vastas nos planos do Espírito. Brotam de um dia para outro, pois os excessos da Humanidade têm reduzido o tempo de reencarnação para um numero significativo de pessoas. Os atentados contra a manutenção da saúde física, mental e psicológica atingem cifras realmente assustadoras.

 

A campanha Em Defesa da Vida, conduzida pelos espíritas, é ação que ameniza a situação. Mas algo mais intenso e abrangente, que envolva a sociedade, urge ser desenvolvido.

 

Assim, passamos ao nosso relato.

 

Localizamos em determinado nicho, em nosso plano, uma comunidade de suicidas vivendo em situação precária, em todos os aspectos. Chamava a nossa atenção que tal reduto de dor nunca reduzia de tamanho. Ao contrario, contabilizávamos um número crescente, dia após dia. Procurando analisar a problemática por todos os seus ângulos, verificamos que no local, incrustado em espaço de difícil acesso, existia uma espécie de ?escola? ? se este é o nome que se pode utilizar ? cujos

integrantes se especializaram em indução ao suicídio; técnicas, recursos e equipamentos sofisticados eram desenvolvidos para que encarnados cometessem suicídio.

 

O suicida era, então, conduzido à instituição e, sob tortura, a alma sofredora fornecia elementos mentais que serviam de alimentos à manutenção de diferentes desarmonias que conduzem o homem ao desespero.

 

Fomos surpreendidos pela existência de tal organização e estarrecidos diante do fato, de como a alienação, associada à maldade, pode desestruturar o ser humano.

 

Após tomar conhecimento dos detalhes, um plano de trabalho foi definido, depois que um mensageiro de elevada região veio até nós.

 

Durante algum tempo pelejamos para sermos adequadamente preparados, inclusive aprendendo a liberar vibrações mais sublimadas, a fim de fornecer a matéria mental e sentimentos puros que pudessem erguer um campo de força energético ao redor do local.

 

Almas devotadas estiveram conosco permanentemente, instruindo-nos, fortificando-nos e nos revelando a excelsitude do amor. Entretanto, era preciso fazer algo mais. Desfazer a organização não representaria, em princípio, maiores problemas; o desafio seria convencer os instrutores a não fazer mais aquele tipo de maldade. Várias tentativas foram envidadas, neste sentido.

Orientadores esclarecidos da Vida Maior foram rejeitados e até ridicularizados.

Nada conseguíamos com os dirigentes daquela instituição, voltada para a prática do suicídio.

 

Mas a vitória chegou, gloriosa, no final da tarde do domingo ultimo, [1] quando, convidados a participar do encerramento do Congresso, aqueles dirigentes presenciaram a luminosidade do amor. Conseguiram, finalmente, ver o significado da vida, a sua importância e fundamentos.

 

Foram momentos de grande emoção que envolveu a todos nós, quando uma nesga de luz desceu sobre os encarnados e desencarnados no exato instante em que todos, em ambos os planos da vida, se deram as mãos e cantaram a música em prol da paz.

 

A nesga de luz se alargou, cresceu, envolveu a todos. A força do amor jorrou plena e, em sublime explosão, rompeu o ar, circulou sobre a cabeça de todos, espalhou-se como poderosa onda para além do recinto, ganhando a cidade.

 

Brasília se nimbou de luz, no ar, no solo, nas águas. À nossa visão estupefata e maravilhada parecia que uma nova estrela estava surgindo. Os seres da Criação, vegetais, animais e hominais, os elementos inertes, rochas e minerais, as construções humanas, prédios, edifícios, avenidas, bancos, repartições públicas e privadas, residências, tudo, enfim, foi banhado por luz pura e

cristalina que jorrava do Alto.

 

Célere, a bela luminosidade espalhou do coração da Pátria para todos os recantos do Brasil, das Américas, da Europa, África, mais além, no Extremo e Médio Oriente, atingindo todos os continentes, países e cidades.

Alcançou os pólos do Planeta, girou, em bailado sublime, por breves minutos ao redor da Terra e se prolongou mais além, em direção ao infinito.

 

 

Jesus tinha se aproximado do Planeta, em brevíssima visita de luz, amor e compaixão.

 

Jamais presenciei tanta beleza e tanta paz!

 

Com afeto.

 

Yvonne Pereira

 

(Mensagem psicográfica recebida por Marta Antunes de Moura, na Federação Espírita Brasileira, em Brasília, no dia 22 de abril de 2010).

 

[1] Domingo, 18 de abril de 2010: dia do encerramento do 3º Congresso Espírita Brasileiro. Todos os presentes cantavam, emocionados, a música pela paz.


Estudo da Semana – 15 de Julho de 2012

O Novo Testamento: explicação no livro O Espírito do Cristianismo

 

A Prisão e o Inferno

 

 

“Quando, pois, vais com o teu adversário ao magistrado, faze o possível para te livrar dele no caminho; para que não suceda que ele te arraste ao juiz, e o juiz te entregue ao meirinho e o meirinho te lance na prisão. Digo-te que não sairás dali até pagares o último ceitil.” (Lucas XII, 58-59.)

“Harmoniza-te sem demora com o teu adversário enquanto estás no caminho com ele; para que não suceda que o adversário te entregue ao juiz, o juiz ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão; em verdade te digo que não sairás dali até pagares o último ceitil”. (Mateus, V, 25-26.)

 

Estas duas passagens evangélicas constituem a antítese do Inferno Eterno, proclamado pelas Igrejas Romana e Protestante. Já tratemos muito desse assunto no livro, “Diabo e a Igreja, em Face do Cristianismo”, mas não será demais lembrar, em vista dos dois trechos acima transcritos, da insubsistência do “dogma do Inferno”, sobre o qual se alicerça esse elemento sectário, que diz representar o Cristo na Terra.

Cada um é julgado por suas obras, e cada qual tem o mérito ou demérito das mesmas obras. Ninguém pode ter salário superior ao serviço que fez; ninguém pode receber castigo maior do que o crime que cometeu. Não é preciso estudar Direito, nem Teologia, para compreender essa verdade que é intuitiva. E tão intuitiva é, que a nossa legislação suprimiu a pena de morte, assim como suprimiu as galés perpétuas que faziam parte do velho Código elaborado pelo elemento clerical, impregnado da idéia do Inferno Eterno.

A tendência evolutiva da lei não é mais para o castigo, mas sim para a correção.

Por isso é que afirmamos que Deus não castiga, corrige.

Vemos atualmente em nossas penitenciárias, por exemplo, o espírito que aí predomina. Um indivíduo pratica um crime; é condenado pelo júri à pena máxima – 30 anos. Vai cumpri-la na penitenciária. Nos primeiros tempos é submetido à prisão celular, para que seja observado, estudado, perscrutado. Conforme a ferocidade ou humildade que revele, ou fica entre as quatro paredes, ou e solto da cela, para trabalhos manuais e de educação moral e intelectual.

Em última análise, na cela ou fora da mesma ele recebe exortações morais. Se o comportamento e aplicação forem irrepreensíveis ele completará a metade do tempo na penitenciária, e, os demais 15 anos, ele os gozará em liberdade, isto é, será solto, tendo, como se diz, a “‘cidade por mensagem”, mas sob a inspeção das autoridades locais onde residir, tratando de si e de sua família até completar a pena, época em que terá absoluta liberdade como todos nós. Eis o espírito da lei, segundo nos disse distinto diretor da penitenciária o Dr. Franklin Piza.

E se na Terra a lei é assim concebida, com atenuantes e indulgências, como poderá deixar de ser assim no Céu, onde a justiça não se pode afastar da misericórdia e do amor!

Lei condenatória, eterna, inflexível, sem oportunidade de correção, mas puramente de vingança, é lei de infinita perversidade, de eterna maldade e que só pode ser concebida por gênios de igual jaez, perversos inquisidores, déspotas que não compreendem Deus, e se arvoram em senhores da inteligência, em escravizadores da razão para exercerem sua autoridade impunemente e manter o seu domínio no mundo.

Repeli esses falsários, esses orgulhos que pretendem fazer da religião um instrumento de sua insensatez, de seu egoísmo bárbaro.

Prevalece, como nos diz o Justo, Nazareno, a paga dos ceitis, que serão todos contados, e, quite o devedor, nenhum tormento suplementar sofrerá, porque Deus não pode fazer pagar dez ceitis a quem só deve cinco. Pago o último ceitil, paga está a dívida.

Não há Inferno; há condições e trabalhos para reparação e correção.

 

 

O Evangelho 2º o Espiritismo

 

Cap. III: Há muitas moradas na casa de meu Pai

 

Mundos Regeneradores

17. Os mundos regeneradores servem de transição entre os mundos de expiação e os mundos felizes. A alma penitente encontra neles a calma e o repouso e acaba por depurar-se. Sem dúvida, em tais mundos o homem ainda se acha sujeito às leis que regem a matéria; a Humanidade experimenta as vossas sensações e desejos, mas liberta das paixões desordenadas de que sois escravos, isenta do orgulho que impõe silêncio ao coração, da inveja que a tortura, do ódio que a sufoca. Em todas as frontes, vê-se escrita a palavra amor; perfeita eqüidade preside às relações sociais, todos reconhecem Deus e tentam caminhar para Ele, cumprindo-lhe as leis.

Nesses mundos, todavia, ainda não existe a felicidade perfeita, mas a aurora da felicidade. O homem lá é ainda de carne e, por isso, sujeito às vicissitudes de que libertos só se acham os seres completamente desmaterializados. Ainda tem de suportar provas, porém, sem as pungentes angústias da expiação. Comparados à Terra, esses mundos são bastante ditosos e muitos dentre vós se alegrariam de habitá-los, pois que eles representam a calma após a tempestade, a convalescença após a moléstia cruel. Contudo, menos absorvido pelas coisas materiais, o homem divisa, melhor do que vós, o futuro; compreende a existência de outros gozos prometidos pelo Senhor aos que deles se mostrem dignos, quando a morte lhes houver de novo ceifado os corpos, a fim de lhes outorgar a verdadeira vida. Então, liberta, a alma pairará acima de todos os horizontes. Não mais sentidos materiais e grosseiros; somente os sentidos de um perispírito puro e celeste, a aspirar as emanações do próprio Deus, nos aromas de amor e de caridade que doseu seio emanam.

18. Mas, ah! nesses mundos, ainda falível é o homem e o Espírito do mal não há perdido completamente o seu império. Não avançar é recuar, e, se o homem não se houver firmado bastante na senda do bem, pode recair nos mundos de expiação, onde, então, novas e mais terríveis provas o aguardam.

Contemplai, pois, à noite, à hora do repouso e da prece, a abóbada azulada e, das inúmeras esferas que brilham sobre as vossas cabeças, indagai de vós mesmos quais as que conduzem a Deus e pedi-lhe que um mundo regenerador vos abra seu seio, após a expiação na Terra. – Santo Agostinho. (Paris, 1862.)

 

Nos Domínios da Mediunidade

 

Cap. 1: Estudando a Mediunidade

 

            Indubitavelmente – concordava o Assistente Áulus – a mediunidade é problema dos mais sugestivos na atualidade do mundo.

Aproxima-se o homem terreno da Era do Espírito, sob a luz da Religião Cósmica do Amor e da Sabedoria e, decerto, precisa de cooperação, a fim de que se lhe habilite o entendimento.

O orientador, de feição nobre e simpática, recebera-nos, a pedido de Clarêncio, para um curso rápido de ciências mediúnicas.

Especializara-se em trabalhos dessa natureza, consagrandolhes muitos anos de abnegação. Era, por isso, dentre as relações do Ministro, que se nos fizera patrono e condutor, um dos companheiros mais competentes no assunto.

Áulus nos acolhera com afabilidade e doçura.

Relacionando aflitivas questões da Humanidade Terrestre, pousava em nós o olhar firme e lúcido, não apenas com o interesse do irmão mais velho, mas também com a afetividade de um pai enternecido.

Hilário e eu não conseguíamos disfarçar a admiração.

Era um privilégio ouvi-lo discorrer sobre o tema que nos trazia até ali.

Aliavam-se nele substanciosa riqueza cultural e o mais entranhado patrimônio de amor, causando-nos satisfação o vê-lo reportar-se às necessidades humanas, com o carinho do médico benevolente e sábio que desce à condição de enfermeiro para a alegria de ajudar e salvar.

Interessava-se pelas experimentações mediúnicas, desde 1779, quando conhecera Mesmer, em Paris, no estudo das célebres proposições lançadas a público pelo famoso magnetizador.

Reencarnando no início do século passado, apreciara, de perto, as realizações de Allan Kardec, na codificação do Espiritismo, e privara com Cahagnet e Balzac, com Théophile Gautier e Victor Hugo, acabando seus dias na França, depois de vários decênios consagrados à mediunidade e ao magnetismo, nos moldes científicos da Europa. No mundo espiritual prosseguiu no mesmo rumo, observando e trabalhando em seu apostolado educativo. Dedicando-se agora a obra de espiritualização no Brasil, e isto há mais de trinta anos, comentava, otimista, as esperanças do novo campo de ação, dando-nos a conhecer a primorosa bagagem de memórias e experiências de que se fazia portador.

Maravilhados ao ouvi-lo, mal lhe respondíamos a essa ou àquela indagação.

– Conhecíamos, sim – informamos, respeitosos, em dado momento –, alguns aspectos do intercâmbio espiritual; todavia, o nosso desejo era amealhar mais amplas noções do assunto, com a simplicidade possível. Em outras ocasiões, estudáramos ao de

leve alguns fenômenos de psicografia, incorporação e materialização, no entanto, era isso muito pouco, à face dos múltiplos serviços que a mediunidade encerra em si mesma.

O anfitrião, afável, aquiesceu em elucidar-nos.

Colaborava em diversos setores de trabalho e prodigalizarnos-ia aquilo que considerava, com humildade, como sendo “alguns apontamentos”.

Para começar, convidou-nos a ouvir um amigo que falaria sobre mediunidade a pequeno grupo de aprendizes encarnados e desencarnados, e em cuja palavra reconhecia oportunidade e valor.

Não nos fizemos de rogados ante a obsequiosa lembrança.

E, porque não havia tempo a perder, seguimo-lo, prestamente.

Em vasto recinto do Ministério das Comunicações, fomos apresentados ao Instrutor Albério, que se dispunha a iniciar a palestra.

Tomamos lugar entre as dezenas de companheiros que o seguiam, atentos, em muda expectação.

Como tantos outros orientadores que eu conhecia, Albério assomou à tribuna, sem cerimônia, qual se nos fora simples irmão, conversando conosco em tom fraternal.

– Meus amigos – falou, com segurança –, dando continuidade aos nossos estudos anteriores, precisamos considerar que a mente permanece na base de todos os fenômenos mediúnicos.

Não ignoramos que o Universo, a estender-se no Infinito, por milhões e milhões de sóis, é a  exteriorização do Pensamento Divino, de cuja essência partilhamos, em nossa condição de raios conscientes da Eterna Sabedoria, dentro do limite de nossa evolução espiritual.

Da superestrutura dos astros à infra-estrutura subatômica, tudo está mergulhado na substância viva da Mente de Deus, como os peixes e as plantas da água estão contidos no oceano imenso.

Filhos do Criador, dEle herdamos a faculdade de criar e desenvolver, nutrir e transformar.

Naturalmente circunscritos nas dimensões conceptuais em que nos encontramos, embora na insignificância de nossa posição comparada à glória dos Espíritos que já atingiram a angelitude, podemos arrojar de nós a energia atuante do próprio pensamento, estabelecendo, em torno de nossa individualidade, o ambiente psíquico que nos é particular.

Cada mundo possui o campo de tensão eletromagnética que lhe é próprio, no teor de força gravítica em que se equilibra, e cada alma se envolve no circulo de forças vivas que lhe transpiram do “hálito” mental, na esfera de criaturas a que se imana, em obediência às suas necessidades de ajuste ou crescimento para a imortalidade.

Cada planeta revoluciona na órbita que lhe é assinalada pelas leis do equilíbrio, sem ultrapassar as linhas de gravitação que lhe dizem respeito, e cada consciência evolve no grupo espiritual a cuja movimentação se subordina.

Somos, pois, vastíssimo conjunto de Inteligências, sintonizadas no mesmo padrão  vibratório de percepção, integrando um Todo, constituído de alguns bilhões de seres, que formam por assim dizer a Humanidade Terrestre.

Compondo, assim, apenas humilde família, no infinito concerto da vida cósmica, em que cada mundo guarda somente determinada família da Humanidade Universal, conhecemos, por enquanto, simplesmente as expressões da vida que nos fala mais de perto, limitados ao degrau de conhecimento que já escalamos.

Dependendo dos nossos semelhantes, em nossa trajetória para a vanguarda evolutiva, à maneira dos mundos que se deslocam no Espaço, influenciados pelos astros que os cercam, agimos e reagimos uns sobre os outros, através da energia mental em que nos renovamos constantemente, criando, alimentando e destruindo formas e situações, paisagens e coisas, na estruturação dos nossos destinos.

Nossa mente é, dessarte, um núcleo de forças inteligentes, gerando plasma sutil que, a exteriorizar-se incessantemente de nós, oferece recursos de objetividade às figuras de nossa imaginação, sob o comando de nossos próprios desígnios.

A idéia é um “ser” organizado por nosso espírito, a que o pensamento dá forma e ao qual a vontade imprime movimento e direção.

Do conjunto de nossas idéias resulta a nossa própria existência.

 

 

 

 


Estudo da Semana – 08 de Julho de 2012

Novo Testamento: explicação no livro Pão Nosso

Conciliação

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial de justiça, e te encerrem na prisão.” Jesus. (Mateus, 5:25.)

Muitas almas enobrecidas, após receberem a exortação desta passagem, sofrem intimamente por esbarrarem com a dureza do adversário de ontem, inacessível a qualquer conciliação.

A advertência do Mestre, no entanto, é fundamentalmente consoladora para a consciência individual.

Assevera a palavra do Senhor – “concilia-te”, o que equivale a dizer “faze de tua parte”.

Corrige quanto for possível, relativamente aos erros do passado, movimenta-te no sentido de revelar a boa-vontade perseverante. Insiste na bondade e na compreensão.

Se o adversário é ignorante, medita na época em que também desconhecias as obrigações primordiais e observa se não agiste com piores características; se é perverso, categoriza-o à conta de doente e dementado em vias de cura.

Faze o bem que puderes, enquanto palmilhas os mesmos caminhos, porque se for o inimigo tão implacável que te busque entregar ao juiz, de qualquer modo, terás então igualmente provas e testemunhos a apresentar. Um julgamento legítimo inclui todas as peças e somente os espíritos francamente impenetráveis ao bem sofrerão o rigor da extrema justiça.

Trabalha, pois, quanto seja possível no capítulo da harmonização, mas se o adversário te desdenha os bons desejos, concilia-te com a própria consciência e espera confiante.

O Livro dos Médiuns

 

Capitulo III: Método

 

            Há, finalmente, os espíritas exaltados. A espécie humana seria perfeita, se sempre tomasse o lado bom das coisas. Em tudo, o exagero é prejudicial. Em Espiritismo, infunde confiança demasiado cega e freqüentemente pueril, no tocante ao mundo invisível, e leva a aceitar-se, com extrema facilidade e sem verificação, aquilo cujo absurdo, ou impossibilidade a reflexão e o exame demonstrariam. O entusiasmo, porém, não reflete, deslumbra. Esta espécie de adeptos é mais nociva do que útil à causa do Espiritismo. São os menos aptos para convencer a quem quer que seja, porque todos, com razão, desconfiam dos julgamentos deles. Graças à sua boa-fé, são iludidos, assim, por Espíritos mistificadores, como por homens que procuram explorar-lhes a credulidade. Meio–mal apenas haveria, se só eles tivessem que sofrer as conseqüências. O pior é que, sem o quererem, dão armas aos incrédulos, que antes buscam ocasião de zombar, do que se convencerem e que não deixam de imputar a todos o ridículo de alguns. Sem dúvida que isto não é justo, nem racional; mas, como se sabe, os adversários do Espiritismo só consideram de bom quilate a razão de que desfrutam, e conhecer a fundo aquilo sobre que discorrem é o que menos cuidado lhes dá.

 

Entre a Terra e o Céu

No cenário terrestre

 

            Numa sala ampla, em que numerosas entidades trabalhavam solícitas, Clarêncio recebeu da jovem um pequeno gráfico que passou a examinar, cauteloso.

            Em seguida, comentou, espontâneo:

            – Ainda agora, falávamos de responsabilidade. Eis um fato que nos ilustra os conceitos.

            E, exibindo o documento que trazia nas mãos, explicou:

            – Temos aqui uma oração comovedora que superou as linhas vibratórias comuns do plano de matéria mais densa. Parte de uma devotada servidora que se ausentou de nossa cidade espiritual, há precisamente quinze anos terrestres, para determinadas tarefas na reencarnação. Não seguiu, porém, desassistida. Permanece sob nossa orientação, O nascimento e o renascimento, no mundo, sob o ponto de vista físico, jazem confiados a leis biológicas de cuja execução se incumbem Inteligências especializadas, contudo, em suas características morais, subordinam-se a certos ascendentes do espírito.

            O Ministro deteve-se alguns instantes, analisando a pequenina e complicada ficha, todavia, como se provocasse a continuidade da lição que recebíamos, meu companheiro considerou:

            – Mas, indiscutivelmente, na  reencarnação há um programa de serviço a realizar…

            – Sim, sem dúvida – aclarou o instrutor –, quanto mais vastos os recursos espirituais de quem retorna à carne, mais complexo é o mapa de trabalho a ser obedecido. Quase todos temos do pretérito expressivo montante de débito a resgatar e todos somos desafiados pelas aquisições a fazer. Nisso está o programa, significando em si uma espécie de fatalidade relativa no ciclo de experiências que nos cabe atender; entretanto, a conduta é sempre nossa e, dentro dela, podemos gerar circunstâncias em nosso benefício ou em nosso desfavor. Reconhecemos, assim, que o livre arbítrio, também relativo, é uma realidade inconteste em todas as esferas de evolução da consciência. Não podemos olvidar, contudo, que, em todos os planos, marchamos em verdadeira interdependência.

            Nas linhas da experiência física, até certo ponto, os filhos precisam dos pais, os doentes necessitam dos médicos e os moços não prescindem do aviso dos mais velhos.      Aqui, a habilitação depende dos educadores, o amparo eficiente exige quem saiba distribuí-lo e a transferência de domicílio para trabalho enobrecedor, quando se trata de Espíritos sem méritos absolutos, reclama o endosso de autoridades competentes.

            – Mas, que vem a ser uma oração refratada? – indagou o meu colega, mordido de curiosidade.

            Hilário fora igualmente médico no mundo e, tanto quanto eu, permanecia em tarefas ligadas à responsabilidade de Clarêncio, adquirindo conhecimentos especializados.

            – A prece refratada é aquela cujo impulso luminoso teve a sua direção desviada, passando a outro objetivo.

            Inclinávamo-nos a desfechar novas perguntas, no entanto o orientador sossegou-nos, esclarecendo:

            – Esperem. Reconhecerão comigo que nos achamos todos imanados uns aos outros.

            Em seguida, falou para a jovem que o observava, respeitosa:

            – Chame a irmã Eulália.

            Alguns momentos passaram, rápidos, e a cooperadora mencionada apareceu irradiando bondade e simpatia.

            – Irmã – disse Clarêncio, preciso –, este gráfico registra aflitivo apelo de Evelina, cuja volta ao aprendizado na carne foi garantida por nossa organização. Parece-me estar a pobrezinha em extremas dificuldades…

            – Sim – concordou a interpelada –, Evelina, apesar da fragilidade do novo corpo, vem sustentando imensa luta moral. O pai, sobrecarregado de questões íntimas, tem a saúde periclitante e a madrasta vem sofrendo obstinada perseguição, por parte de nossa

desventurada Odila.

            – A genitora de Evelina?

            – Sim, ela mesma. Ainda não se resignou a perder a primazia feminina no lar. Há dois anos empenho energia e boa vontade por dissuadi-la. Vive, porém, enovelada nos laços escuros do ciúme e não nos ouve. O egoísmo desbordante fá-la esquecida dos compromissos que abraçou. Zulmira, por sua vez, a segunda esposa de Amaro, desde a morte do pequenino Júlio caiu em profundo abatimento. Como não ignoramos, o pequeno desencarnou afogado, consoante as provas de que se fez devedor. A madrasta, contudo, que chegou a desejar-lhe o desaparecimento por não amá-lo, encontrando-se sob as sugestões da mulher que a precedeu nas atenções do marido, crê-se culpada… Evelina, depois de perder o maninho em trágicas circunstâncias, acha-se desorientada, entre o genitor aflito e a segunda mãe,em desespero… Aindaanteontem, pude vê-la. Chorava, comovedoramente, diante da fotografia da mãezinha desencarnada, suplicando-lhe proteção. Odila, porém, envolvida nas teias das próprias criações mentais, não se mostra capaz de corresponder à confiança e à ternura da menina. Ela, entretanto, tem insistido com tal vigor na obtenção de socorro espiritual que as suas rogativas, quebrando a direção, chegam até aqui, de tal modo…

Opinião Espírita – Capítulo 01

1 – EXAMINEMOS A NÓS MESMO

 

L – Questão 919

O dever do espírita-cristão é tornar-se progressivamente melhor.

Útil, assim, verificar, de quando em quando, com rigoroso exame pessoal, a nossa

verdadeira situação íntima.

Espírita que não progride durante três anos sucessivos permanece estacionário.

Testa a paciência própria: – Estás mais calmo, afável e compreensivo?

Inquire as tuas relações na experiência doméstica:

– Conquistaste mais alto clima de paz dentro de casa?

Investiga as atividades que te competem no templo doutrinário: – Colaboras com mais euforia na seara do Senhor?

Observa-te nas manifestações perante os amigos: – Trazes o Evangelho mais vivo nas atitudes?

Reflete em tua capacidade de sacrifício: – Notas em ti mesmo mais ampla disposição de servir voluntariamente?

Pesquisa o próprio desapego: – Andas um pouco mais livre do anseio de influência e de posses terrestres?

Usas mais intensamente os pronomes “nos”, “nosso” e “nossa” e menos os

determinativos “eu”, “meu” e “minha”?

Teus instantes de tristeza ou de cólera surda, às vezes tão conhecidos somente por ti, estão presentemente mais raros?

Diminuíram-te os pequenos remorsos ocultos no recesso da alma?

Dissipaste antigos desafetos e aversões?

Superastes os lapsos crônicos de desatenção e negligência?

Estudas mais profundamente a Doutrina que professas?

Entendes melhor a função da dor?

Ainda cultivas alguma discreta desavença?

Auxilias aos necessitados com mais abnegação?

Tens orado realmente?

Teus idéias evoluíram?

Tua fé raciocinada consolidou-se com mais segurança?

Tens o verbo mais indulgente, os braços mais ativos e as mãos mais abençoadoras?

Evangelho é alegria no coração: – Estás, de fato,mais alegre e feliz intimamente, nestes três últimos anos?

Tudo caminha! Tudo evolui! Confiramos o nosso rendimento individual com o Cristo!

Sopesa a existência hoje, espontaneamente, em regime de paz, para que te não vejas na obrigação de sopesá-la amanhã sob o impacto da dor.

Não te iludas! Um dia que se foi é mais uma cota de responsabilidade, mais um passo rumo à Vida Espiritual, mais uma oportunidade valorizada ou perdida.

Interroga a consciência quanto à utilidade que vens dando ao tempo, à saúde e aos

ensejos de fazer o bem que desfrutas na vida diária.

Faze isso agora, enquanto te vales do corpo humano, com a possibilidade de

reconsiderar diretrizes e desfazer enganos facilmente, pois, quando passares para o lado de cá, muita vez, já será mais difícil…


Estudo da Semana – 01 de Julho de 2012

O novo Testamento: explicação no livro “O Espírito do Cristianismo”

 

A Justiça dos escribas e fariseus

 

“Porque eu vos digo que se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus.” (Mateus, V, 20.)

“Então falou Jesus ao povo e aos discípulos:

“Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus. Fazei e observai, pois, tudo quanto eles vos disserem, mas não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem. Atam pesados fardos e os põem sobre os ombros dos homens, entretanto eles mesmos nem com o dedo querem movê-los. Praticam, porém, todas as suas obras para serem vistos dos homens, pois alargam os seus filactérios e alongam as suas tímbrias, e gostam dos primeiros lugares nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações nas praças, e de serem chamados mestres pelos homens.” (Mateus, XXIII,1 a7.).

 

A Nossa geração parece ter herdado a mania de grandeza dos antigos escribas e fariseus.

Educados pelos sacerdotes da Igreja Católica Romana, que são outras tantas edições aumentadas do Farisaísmo, os nossos “maiorais” não podiam livrar-se do estigma de condenação com que Jesus assinalou aquela “raça de víboras” que o condenou à crucificação.

E não são os sacerdotes de Roma, relembrando os fariseus, e os sacerdotes protestantes, evocando os escribas, que se acham assentados na “Cadeira de Moisés” ditando leis, reunindo concílios, fazendo dogmas, impondo cultos, exigindo dízimos, finalmente atando aos ombros de suas ovelhas, pesados fardos, “que eles mesmos nem com a ponta do dedo querem tocar”?

Não são os padres, constituídos em hierarquia, que alargam seus filactérios, se vestem de púrpura e brocado com cruzes de safira e esmeralda crivadas de brilhantes, que alongam as suas fímbrias para se distinguirem dos demais homens, e, para conseguirem esse plano de domínio, freqüentam os banquetes onde lhes são oferecidos os primeiros lugares, e têm a primazia das igrejas, das quais chegaram a constituir-se proprietários, embora não gastem um vintém para essas edificações?

Não são eles que se tem na conta de mestres em Religião, doutores em Teologia, exigindo que a sua palavra seja o non plus ultra da sabedoria?

Os fariseus constituíam, no tempo de Jesus, uma seita muito numerosa, como a católica romana da atualidade. Os escribas eram os doutores que explicavam a Lei Mosaica ao povo. Faziam causa comum com os fariseus. Estas duas seitas dirigiam a opinião pública em Jerusalém e seus representantes eram homens do governo, ou tinham o apoio do governo.

Jesus, revolucionário denodado, apontava as gentes os rigores da lei porém mandava que todos a ela se subordinassem, porque o Código era rigoroso e impunha penas pesadas a quem a ele não se submetesse.

Entretanto, o Mestre não deixava de chamar a atenção dos seus ouvintes para as ordenações dos escribas e fariseus: “‘observai, pois, tudo quanto eles vos disserem, mas não os imiteis nas suas obras.”

A “justiça dos escribas e fariseus” é, mutatis mutandis, semelhante à justiça católica, à justiça protestante, à justiça que se observa atualmente no mundo entre governos e governados; é a justiça do “dente por dente”, “olho por olho”, que mata os assassinos e que pune os criminosos com o mesmo crime que eles praticaram; é a justiça da condenação eterna erigida em dogmas pelos Papas e Concílios.

É uma justiça sem discernimento e sem justiça, é uma justiça sem misericórdia e sem verdade, é justiça que antigamente dizia ser o Cristo filho de Davi (Mateus, XXII, 41-46), e atualmente erige nos seus tribunais como símbolo de sua Justiça, o Cristo Crucificado.

Mas, esperamos novos Céus, que venham a nós para que o Reino de Deus seja proclamado, e então, sacerdotes de púrpuras, escribas e doutores, governos e parasitas governamentais serão desligados da Terra para expiarem suas faltas em mundos que necessitem de sua ação, entre povos imaturos que também tenham por emblema o “dente por dente, olho por olho”.

O nosso planeta está no período agudo das dores que assinalam a Era Nova, em que resplandecerão, como estrelas de primeira grandeza: a Justiça, a Misericórdia e a Fé.

 

 

 

O livro dos Espíritos

58. Os mundos mais afastados do Sol estarão privados de luz e calor, por motivo de esse astro se lhes mostrar apenas com a aparência de uma estrela?

 

“Pensais então que não há outras fontes de luz e calor além do Sol e em nenhuma conta tendes a eletricidade que, em certos mundos, desempenha um papel que desconheceis e bem mais importante do que o que lhe cabe desempenhar na Terra? Demais, não dissemos que todos os seres são feitos de igual matéria que vós outros e com órgãos de conformação idêntica à dos vossos.”

As condições de existência dos seres que habitam os diferentes mundos hão de ser adequadas ao meio em que lhes cumpre viver. Se jamais houvéramos visto peixes, não compreenderíamos pudesse haver seres que vivessem dentro dágua. Assim acontece com relação aos outros mundos, que sem dúvida contêm elementos que desconhecemos. Não vemos na Terra as longas noites polares iluminadas pela eletricidade das auroras boreais? Que há de impossível em ser a eletricidade, nalguns mundos, mais abundante do que na Terra e desempenhar neles uma função de ordem geral, cujos efeitos não podemos compreender? Bem pode suceder, portanto, que esses mundos tragam em si mesmos as fontes de calor e de luz necessárias a seus habitantes.

Libertação

 

Ouvindo Elucidações

 

            …“Os investigadores do raciocínio, ligeiramente tisnados de princípios religiosos, identificam tão somente, nessa anomalia  sinistra, a renitência da imperfeição e da fragilidade da carne, como se a carne fosse permanente individuação diabólica, esquecidos de que a matéria mais densa não é senão o conjunto das vidas inferiores incontáveis, em processo de aprimoramento,  crescimento e libertação.

“Nos campos da Crosta Planetária, queda-se a inteligência, qual se fora anestesiada por perigosos narcóticos da ilusão; no entanto, auxiliá-la-emos a sentir e reconhecer que o espírito permanece vibrando em todos os ângulos da existência.

“Cada espécie de seres, do cristal até o homem, e do homem até o anjo, abrange inumeráveis famílias de criaturas, operando em determinada freqüência do Universo. E o amor divino alcança-nos a todos, à maneira do Sol que abraça os sábios e os vermes.

“Todavia, quem avança demora-se em ligação com quem se localiza na esfera próxima.

“O domínio vegetal vale-se do império mineral para sustentar-se e evoluir. Os animais aproveitam os vegetais na obra de aprimoramento. Os homens se socorrem de uns e outros para crescerem mentalmente e prosseguir adiante…

“Atritam os reinos da vida, conhecidos na Terra, entre si.

“Torturam-se e entredevoram-se, através de rudes experiências, a fim de que os valores espirituais se desenvolvam e resplandeçam, refletindo a divina luz…”

Espírito e Vida

 

Deslizes Ocultos

 

       “167. Qual o fim objetivado com a reen­carnação?

       “Expiação, melhoramento progressivo da Humanidade. Sem isto, onde a justiça?”

       O LIVRO DOS ESPÍRITOS

 

Punge-te o coração o sofrimento do hanseniano lacerado, com amputações, carpindo rude expiação.

Aflige-te o espírito o obsesso emparedado nos cor­redores escuros do desalinho psíquico.

Angustia-te a sensibilidade o canceroso com prazo marcado na contingência carnal…

Faz-te sofrer o cerceamento social imposto ao de­linqüente, que se comprometeu por infelicidade mo­mentânea, arruinando outrem e a si mesmo infelicitando.

Constrange-te a visão do deformado físico, tera­togênico ou vítima circunstancial de um desastre ou tragédia, que arrasta a ruína orgânica, em viagem de longo curso.

Suscita-te piedade o espetáculo deprimente dos órfãos ao desamparo e dos velhinhos sem agassalho, exibindo a miséria nas ruas do desconforto.

Confrangem-te o peito os caídos ao relento, que fizeram dos passeios e portais rústicos de ruelas escuras o grabato de dolorosas provações.

Dói-te a patética das mães viúvas e esfaimadas e dos enfermos sem medicamentos ou, ainda, dos esque­cidos pelo organismo social.

Todos são passíveis do teu melhor sentimen­to de amor e compunção.

Ao fitá-lo, recordas-te dos “filhos do Calvário” e evocas, naturalmente, Jesus…

Eles, porém, estes sofredores, estão em resgate, dependendo deles mesmos a felicidade para o amanhã.

Já foram alcançados pelo invencível poder da Lei Divina.

Outros há que passam distribuindo simpatia e cordialidade, merecedores, no entanto, da mais profun­da comiseração.

Alguns têm o corpo jovem, e fazem dele merca­doria de preço variável na insegura balança das emo­ções negociáveis.

Muitos sorriem e são tiranos da família, que esmagam impiedosamente.

Vários são disputados nas altas rodas das comu­nidades e vivem do fruto infeliz das drogas estupefa­cientes.

Diversos mantêm bordéis e aliciam jovens le­vianos.

Uns jogam na bolsa da usura e ludibriam corações invigilantes e arrebatados…

Outros comercializam a honorabilidade do lar ou envilecem a dignidade dos ascendentes.

Inúmeros são agiotas corteses, conquanto inescru­pulosos e cruéis.

Incontáveis caluniam, amaldiçoam, apontam as falhas do próximo e, aparentemente, são justos, leais e bons.

Alçados alguns às posições invejáveis das artes, da política, das religiões são mendazes e empedernidos, delicados por profissão e criminosos disfarçados.

Uma infinidade destes, porém, ao nosso lado ou sob o nosso teto parecem nobres e honrados, sadios e corretos, mas não são..

Aqueles, os em resgate, possivelmente encontram-se arrependidos, ou, sob o látego da dor predispõem­-se às tarefas de recomeço feliz, mais tarde.

Estes, como são ignorados pelas leis dos homens, desconhecidos dos magistrados, prosseguem na carrei­ra insidiosa da loucura que os arrasta à meta do auto­cídio direto ou indireto.

Ludibriando sempre, esquecem-se de si mesmos.

Não os esquecerá, todavia, a Lei.

O  que fazem e como o fazem, o que pensam e contra quem pensam inscrevem-no, gravam-no no perispírito com rigorosa precisão, para depois…

Todas as culpas ocultas se transformarão em feri­das que clamarão pelo tempo e espaço medicamentos eficazes e dolorosos.

Expoliadores dos bens divinos, experimentarão o fruto da falácia e da zombaria.

Ouviram, sim, através dos tempos, os apelos da verdade e da vida.

Conheceram e sabem qual a trilha da retidão.

Podem agir com acerto.

Preferem, no entanto, assim. São os construtores do amanhã.

Ora e apiadas-te, meditando neles e nos seus cri­mes disfarçados e ocultos, para te acautelares.

A queda e o erro, o ato infeliz e o compromisso negativo que os demais ignoram, todos podem condu­zir em silencioso calvário. É necessário, porém, o esforço para a reeducação da mente e a disciplina do espírito.

Todas as vezes em que o Mestre ofereceu miseri­córdia e socorro a alguém no sublime desiderato do seu apostolado redentor, foi claro e severo quanto à não continuidade no erro.

Pensando nisso, dilata o amor aos sofredores, a piedade aos geradores de sofrimentos, mas cuida de não te comprometeres com a retaguarda, porqüanto amanhã, diante da consciência liberta, as tuas sombras serão os fantasmas a criarem problemas contigo ante a Lei Sublime do Excelso Amor.


Estudo da Semana – 24/06/2012

Novo Testamento

 

Explicação no livro Vinha de Luz

Cristãos

“Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo algum entrareis no Reino dos Céus.” – Jesus. (Mateus, 5 :20.)

Os escribas e fariseus não eram criminosos, nem inimigos da Humanidade.

Cumpriam deveres públicos e privados.

Respeitavam as leis estabelecidas.

Reverenciavam a Revelação Divina.

Atendiam aos preceitos da fé.

Jejuavam.

Pagavam impostos.

Não exploravam o povo.

Naturalmente, em casa, deviam ser excelentes mordomos do conforto familiar.

Entretanto, para o Emissário Celeste a justiça deles deixava a desejar.

Adoravam o Eterno Pai, mas não vacilavam em humilhar o irmão infeliz. Repetiam fórmulas verbais no culto à prece, todavia, não oravam expondo o coração. Eram corretos na posição exterior, contudo, não sabiam descer do pedestal de orgulho falso em que se erigiam, para ajudar o próximo e desculpá-lo até o próprio sacrifício. Raciocinavam perfeitamente no quadro de seus interesses pessoais, todavia, eram incapazes de sentir a verdadeira fraternidade, suscetível de conduzir os vizinhos ao regaço do Supremo Senhor.

Eis por que Jesus traça aos aprendizes novo padrão de vida.

O cristão não surgiu na Terra para circunscrever-se à casinhola da personalidade; apareceu, com o Mestre da Cruz, para transformar vidas e aperfeiçoá-las com a própria existência que, sob a inspiração do Mentor Divino, será sempre um cântico de serviço aos semelhantes, exalçando o amor glorioso e sem-fim, na direção do Reino dos Céus que começa, invariavelmente, dentro de nós mesmos.

Obras Póstumas

O Perispírito, principio das manifestações

 

15. Podem ser espontâneas ou provocadas as manifestações dos Espíritos. As primeiras dão-se inopinadamente e de improviso. Produzem-se, muitas vezes, entre pessoas de todo estranhas às idéias espíritas. Nalguns casos e sob o império de certas circunstâncias, pode a vontade provocar as manifestações, sob a influência de pessoas dotadas, para tal efeito, de faculdades especiais.

As manifestações espontâneas sempre se produziram, em todas as épocas e em todos os países. Sem dúvida, já na antigüidade se conhecia o meio de as provocar; mas, esse meio constituía privilégio de certas castas que somente a raros iniciados o revelavam, sob condições rigorosas, escondendo-o ao vulgo, a fim de o dominar pelo prestígio de um poder oculto. Ele, contudo, se perpetuou, através das idades até aos nossos dias, entre alguns indivíduos, mas quase sempre desfigurado pela superstição, ou de mistura com as práticas ridículas da magia, o que contribuiu para o desacreditar. Nada mais fora até então senão germens lançados aqui e ali. A Providência reservara para a nossa época o conhecimento completo e a vulgarização desses fenômenos, para os expurgar das ligas impuras e torná-los úteis ao melhoramento da Humanidade, madura agora para os compreender e lhes tirar as conseqüências.

Religião dos Espíritos – Tentação e Remédio

Reunião pública de 12/1/59
Questão nº 712

Qual acontece com a árvore, a equilibrar-se sobre as próprias raízes, guardamos o coração na tela do presente, respirando o influxo do passado.

É assim que o problema da tentação, antes que nascido de objetos ou paisagens exteriores, surge fundamentalmente de nós – na trama de sombra em que se nos enovelam os pensamentos…

Acresce, ainda, que essas mesmas ondas de força experimentam a atuação dos amigos desenfaixados da carne que deixamos a distância da esfera física, motivo por que, muitas vezes, os debuxos mentais que nos incomodam levemente, de início, no campo dessa ou daquela idéia infeliz, gradualmente se fazem quadros enormes e inquietantes em que se nos aprisionam os sentimentos, que passam, muita vez, ao domínio da obsessão manifesta.

Todavia, é preciso lembrar que a vida é permanente renovação propelindo-nos a entender que o cultivo da bondade incessante é o recurso eficaz contra o assédio de toda influência perniciosa.

É o trabalho, por essa forma, o antídoto adequado, capaz de anular toda enquistação tóxica do mundo íntimo, impulsionando-nos o espírito a novos tipos de sugestão, nos quais venhamos a assimilar o socorro dos Emissários da Luz, cujos braços de amor nos arrebatam ao nevoeiro dos próprios enganos.

Assim, pois, se aspiras à vitória sobre o visco da treva que nos arrasta para os despenhadeiros da loucura ou do crime, ergue no serviço à felicidade dos semelhantes o altar dos teus interesses de cada dia, porquanto, ainda mesmo o delinqüente confesso, em se decidindo a ser o apoio do bem na Terra, transforma-se, pouco a pouco, em mensageiro do Céu.

No Mundo Maior

 

Entre dois planos

 

Esplendia o luar, revestindo os ângulos da paisagem de intensa luz. Maravilhosos cúmulos a  Oeste, espraiados no horizonte, semelhavam-se a castelos de espuma láctea, perdidos no imenso azul; confinando com a amplidão, o quadro terrestre contrastava com o doce encantamento do alto, deixando entrever a vasta planície, recamada de arvoredo em pesado verde-escuro. Ao Sul, caprichosos cirros reclinavam-se do Céu sobre a Terra, simbolizando adornos de gaze esvoaçante; evoquei, nesse momento, a juventude da Humanidade encarnada, perguntando a mim mesmo se aquelas bandas alvas do firmamento não seriam faixas celestiais, a protegerem o repouso do educandário terrestre.

A solidão imponente do plenilúnio infundia-me quase terror pela melancolia de sua majestosa e indizível beleza.

A idéia de Deus envolvia-me o pensamento, arrancando-me notas de respeito e  gratidão, que eu, entretanto, não chegava a emitir. Em plena casa da noite, rendia culto de amor ao Eterno, que lhe criara os fundamentos sublimes de silêncio e de paz, em refrigério das almas encarnadas na Crosta da Terra.

O luminoso disco lunar irradiava, destarte, maravilhosas sugestões. Aos seus reflexos, iniciara-se a evolução terrena e numerosas civilizações haviam modificado o curso das experiências humanas. Aquela mesma lâmpada suspensa clareara o caminho dos seres primitivos, conduzira os passos dos conquistadores, norteara a jornada dos santos. Testemunha impassível, observara a fundação de cidades suntuosas, acompanhando-lhes a prosperidade e a decadência; contemplara  as incessantes renovações da geografia política do mundo; brilhara sobre a testa coroada dos príncipes e sobre o cajado de misérrimos pastores; presenciava, todos os dias, há longos milênios, o nascimento e a morte de milhões de seres. Sua augusta serenidade refletia a paz divina. Cá em baixo, desencarnados e encarnados, possuidores de relativa inteligência, podíamos proceder a experimentos, reparar estradas, contrair compromissos ou edificar virtudes, entre a esperança e a inquietação, aprendendo e recapitulando sempre; mas a Lua, solitária e alvinitente, trazia-nos a idéia da tranqüilidade inexpugnável da Divina Lei.

– A região do encontro está próxima.

A palavra do Assistente Calderaro interrompeu-me a meditação.

O aviso fazia-me sentir o trabalho, a responsabilidade; lembrava, sobretudo, que não me encontrava só.

Não viajávamos, ambos, sem objetivo.

Em breves minutos, partilharíamos os trabalhos do Instrutor Eusébio, abnegado paladino do amor cristão, em serviço de auxílio a companheiros necessitados.

Eusébio dedicara-se, de há muito, ao ministério do socorro espiritual, com vastíssimos créditos em nosso plano. Renunciara a posições de realce e adiara sublimes realizações, consagrando-se inteiramente aos famintos de luz. Superintendia prestigiosa organização de assistência em zona intermediária, atendendo a estudantes relativamente espiritualizados, pois ainda jungidos ao círculo carnal, e a discípulos recém-libertos do campo físico.

A enorme instituição, a que dedicava direção fulgurante, regurgitava de almas situadas entre as esferas inferiores e as superiores, gente com imensidão de problemas e de indagações de toda a espécie, a requerer-lhe paciência e sabedoria; entretanto, o indefesso missionário, mau grado ao constante acúmulo de serviços complexos, encontrava tempo para descer semanalmente à Crosta Planetária, satisfazendo interesses imediatos de aprendizes que se candidatavam ao discipulado, sem recursos de elevação para vir ao encontro de seu verbo iluminado, na sede superior.

Não o conhecia pessoalmente. Calderaro, porém, recebia-lhe a orientação, de conformidade com o quadro hierárquico, e a ele se referira com o entusiasmo do subordinado que se liga ao chefe, guardando o amor acima da obediência.

O Assistente, a seu turno, prestava serviço ativo na própria Crosta da Terra, a atender, de modo direto, aos irmãos encarnados. Especializara-se na ciência do socorro espiritual, naquela que, entre os estudiosos do mundo, poderíamos chamar “psiquiatria iluminada”, setor de realizações que há muito tempo me seduzia.

Dispondo de uma semana sem obrigações definidas, dentre os encargos que me diziam respeito, solicitei ingresso na turma de adestramento, da qual se fizera Calderaro eminente orientador, tendo-me ele aceito com a gentileza característica dos legítimos missionários do bem e propondo-se conduzir-me carinhosamente.

Encontrava-se em oportunidade favorável aos meus propósitos de aprender, pois a equipe de preparação, que lhe recebia ensinamentos, excursionava em outra região, a labutar em atividades edificantes; à vista disso, poderia dispensar-me toda a atenção, auxiliando-me os desejos.


Estudos da Semana – 10 de Junho de 2012

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Missionários da Luz

 

O psicógrafo

            Encerrada a conversação, referente aos problemas de intercâmbio com os habitantes da esfera carnal, o Instrutor Alexandre, que desempenha elevadas funções em nosso plano, dirigiu-me a palavra, gentilmente:

            – Compreendo seu desejo. Se quiser, poderá acompanhar-me ao nosso núcleo, em momento oportuno.

            – Sim – respondi, encantado –, a questão mediúnica é fascinante. O interlocutor sorriu benevolentemente e concordou:

            – De fato, para quem lhe examine os ascendentes morais.

            Marcou-se, mais tarde, a noite de minha visita e esperei os ensinamentos práticos, alimentando indisfarçável interesse.

            Surgida à oportunidade, vali-me da prestigiosa influência para ingressar no espaçoso e velho salão, onde Alexandre desempenha atribuições na chefia.

            Dentre as dezenas de cadeiras, dispostas em filas, somente dezoito permaneciam ocupadas por pessoas terrestres, autênticas.

            As demais atendiam à massa invisível aos olhos comuns do plano físico. Grande assembléia de almas sofredoras. Público extenso e necessitado.

            Reparei que fios luminosos dividiam os assistentes da região espiritual em turmas diferentes. Cada grupo exibia características próprias. Em torno das zonas de  acesso postavam-se corpos de guarda e compreendi, pelo vozerio do exterior, que também ali a entrada dos desencarnados obedecia a controle significativo. As entidades necessitadas, admitidas ao interior, mantinham discrição e silêncio.

            Entrei cauteloso, sem despertar atenção na assembléia que ouvia, emocionadamente, a palavra generosa e edificante de operoso instrutor da casa.

            Grandes números de cooperadores velavam, atentos. E, enquanto o devotado mentor falava com o coração nas palavras, os dezoito companheiros encarnados demoravam-se em rigorosa concentração do pensamento, elevado a objetivos altos e puros. Era belo sentir-lhes a vibração particular. Cada qual emitia raios luminosos, muito diferentes entre si, na intensidade e na cor.

            Esses raios confundiam-se à distância aproximada de sessenta centímetros dos corpos físicos e  estabeleciam uma corrente de força, bastante diversa das energias de nossa esfera. Essa corrente não se limitava ao círculo movimentado. Em certo ponto, despejava elementos vitais, à maneira de fonte miraculosa, com origem nos corações e nos cérebros humanos que aí se reuniam. As energias dos encarnados casavam-se aos fluidos vigorosos dos trabalhadores de nosso plano de ação, congregados em vasto número, formando precioso armazém de benefícios para os infelizes, extremamente apegados ainda às sensações fisiológicas.

            Semelhantes forças mentais não são ilusórias, como pode parecer ao raciocínio terrestre, menos esclarecido quanto às reservas infinitas de possibilidades além da matéria mais grosseira.

            Detinha-me na observação dos valores novos de meu aprendizado, quando o meu amigo, terminada a dissertação consoladora, me solicitou a presença nos serviços mediúnicos. Demonstrando-se interessado no aproveitamento integral do tempo, foi muito comedido nas saudações.

            – Não podemos perder os minutos – informou. E, designando reduzido grupo de seis entidades próximas, esclareceu:

            – Esperam, ali, os amigos autorizados.

            – À comunicação? – indaguei.

            O instrutor fez um sinal afirmativo e acrescentou:

            – Nem todos, porém, conseguem o intuito à mesma hora. Alguns são obrigados a esperar semanas, meses, anos…

            – Não supunha tão difícil a tarefa – aduzi, espantado.

            – Verá – falou Alexandre, gentil.

            E dirigindo-se para um rapaz  que se mantinha em profunda concentração, cercado de auxiliares de nosso plano, explicou, atencioso:

            – Temos seis comunicantes prováveis, mas na presente reunião apenas compareceu um médium em condições de atender.

            Desde já, portanto, somos obrigados a considerar que o grupo de aprendizes e obreiros terrestres somente receberá o que se relacione com o interesse coletivo.        Não há possibilidade para qualquer serviço extraordinário.

            – Julguei que o médium fosse a máquina, acima de tudo – ponderei.

            – A máquina também gasta – observou o instrutor – e estamos diante de maquinismo demasiadamente delicado.

            Fixando-me a expressão espantadiça, Alexandre continuou:

            – Preliminarmente, devemos reconhecer que, nos serviços mediúnicos, preponderam os fatores morais. Neste momento, o médium, para ser fiel ao mandato superior, necessita clareza e serenidade, como o espelho cristalino dum lago. De outro modo, as ondas de inquietude perturbariam a projeção de nossa espiritualidade sobre a materialidade terrena, como as águas revoltas não refletem as imagens sublimes do céu e da Natureza ambiente. 

            Indicando o médium, prosseguiu o orientador, com voz firme:

            – Este irmão não é um simples  aparelho. É um Espírito que deve ser tão livre quanto o nosso  e que, a fim de se prestar ao intercâmbio desejado, precisa renunciar a si mesmo, com abnegação e humildade, primeiros fatores na obtenção de acesso à permuta com as regiões mais elevadas. Necessita calar, para que outros falem; dar de si próprio, para que outros recebam. Em suma, deve servir de ponte, onde se encontrem interesses diferentes. Sem essa compreensão consciente do espírito de serviço, não poderia atender aos propósitos edificantes. Naturalmente, ele é responsável pela manutenção dos recursos interiores, tais como a tolerância, a humildade, a disposição fraterna, a paciência e o amor cristão; todavia, precisamos cooperar no sentido de manter-lhe os estímulos de natureza exterior, porque se o companheiro não tem pão, nem paz relativa, se lhe falta assistência nas aquisições mais simples, não poderemos exigir-lhe a colaboração, redundanteem sacrifício. Nossasresponsabilidades, portanto, estão conjugadas nos mínimos detalhes da tarefa a cumprir.

            Raiando-me a idéia de que o médium deveria esperar, satisfeito, a compensação divina, Alexandre ponderou:

            – Consideremos, contudo, meu  amigo, que ainda nos encontramos em trabalho incompleto. A questão de salário virá depois…

 

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Agenda Cristã

 

Nas Conversações

            Não se irrite com o interlocutor, se não lhe corresponde à expectativa. Talvez não tenha sido você suficientemente claro na expressão.

            Se o interpelado não atende, de pronto, cale as reclamações. É provável que ele seja gago e, se o não for, a descortesia é uma infelicidade em si mesma.

            Quando alguém não lhe der a informação solicitada, com a presteza que você desejaria, não se aborreça. Recorde que a surdez pode atacar a todos.

            Evite os assuntos desconcertantes para o ouvinte. Todos temos zonas nevrálgicas no destino, sobre as quais precisamos fazer silêncio.

            Não pergunte a esmo. Quem muito interroga, muito fere.

            Cultive a delicadeza com os empregados de qualquer instituição ou estabelecimento, onde você permaneça de passagem. Sua mente, quase sempre, está despreocupada em semelhantes lugares e ignora os problemas de quem foi chamado a servi-lo.

            Seja leal, mas fuja à franqueza descaridosa. A pretexto de ser realista, não pretenda ser mais verdadeiro que Deus, somente de cuja Autoridade Amorosa recebemos as revelações e trabalhos de cada dia.

            Se o companheiro lhe fere o ouvido com má resposta, tenha calma e espere o tempo. Possivelmente já respondeu com gentileza noventa e nove vezes a outras pessoas, ou, talvez, acabe de sofrer uma perda importante.

            Ajude, conversando. Uma boa palavra auxilia sempre. Lembre-se de que o mal não merece comentário em tempo algum.

 

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O Céu e o Inferno

 

Cap. II: Temor da morte

 

Causas do temor da morte

Item 9:

            Demais, a crença vulgar coloca as almas em regiões apenas acessíveis ao pensamento, onde se tornam de alguma sorte estranhas aos vivos; a própria Igreja põe entre umas e outras uma barreira insuperável, declarando rotas todas as relações e impossível qualquer comunicação. Se as almas estão no inferno, perdida é toda a esperança de as rever, a menos que lá se vá ter também; se estão entre os

eleitos, vivem completamente absortas em contemplativa beatitude. Tudo isso interpõe entre mortos e vivos uma distância tal que faz supor eterna a separação, e é por isso que muitos preferem ter junto de si, embora sofrendo, os entes caros, antes que vê-los partir, ainda mesmo que para o céu.

            E a alma que estiver no céu será realmente feliz vendo, por exemplo, arder eternamente seu filho, seu pai, sua mãe ou seus amigos?

 

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O Novo Testamento

 

Façamos nossa luz (Explicação no Caminho, Verdade e Vida)

 “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens.” — Jesus.

(MATEUS, capítulo 5, versículo 16.)

            Ante a glória dos mundos evolvidos, das esferas sublimes que povoam o Universo, o estreito campo em que nos agitamos, na Crosta Planetária, é limitado círculo de ação.

            Se o problema, no entanto, fosse apenas o de espaço, nada teríamos a lamentar.

            A casa pequena e humilde, iluminada de Sol e alegria, é paraíso de felicidade.

            A angústia de nosso plano procede da sombra.

            A escuridão invade os caminhos em todas as direções. Trevas que nascem da ignorância, da maldade, da insensatez, envolvendo povos, instituições e pessoas.        Nevoeiros que assaltam consciências, raciocínios e sentimentos.

            Em meio da grande noite, é necessário acendamos nossa luz. Sem isso é impossível encontrar o caminho da libertação. Sem a irradiação brilhante de nosso próprio ser, não poderemos ser vistos com facilidade pelos Mensageiros Divinos, que ajudam em nome do Altíssimo, e nem auxiliaremos efetivamente a quem quer que seja.

            É indispensável organizar o santuário interior e iluminá-lo, a fim de que as

trevas não nos dominem.

            É possível marchar, valendo-nos de luzes alheias. Todavia, sem claridade que nos seja própria, padeceremos constante ameaça de queda. Os proprietários das lâmpadas acesas podem afastar-se de nós, convocados pelos montes de elevação que ainda não merecemos.

            Vale-te, pois, dos luzeiros do caminho, aplica o pavio da boa-vontade ao óleo do serviço e da humildade e acende o teu archote para a jornada.

            Agradece ao que te ilumina por uma hora, por alguns dias ou por muitos anos, mas não olvides tua candeia, se não desejas resvalar nos precipícios da estrada longa!…

            O problema fundamental da redenção, meu amigo, não se resume a palavras faladas ou escritas. É muito fácil pronunciar belos discursos e prestar excelentes informações, guardando, embora, a cegueira nos próprios olhos.

            Nossa necessidade básica é de luz própria, de esclarecimento íntimo, de auto-educação, de conversão substancial do “eu” ao Reino de Deus.

            Podes falar maravilhosamente acerca da vida, argumentar com brilho sobre

a fé, ensinar os valores da crença, comer o pão da consolação, exaltar a paz, recolher as flores do bem, aproveitar os frutos da generosidade alheia, conquistar a coroa efêmera do louvor fácil, amontoar títulos diversos que te exornem a personalidade em trânsito pelos vales do mundo…

            Tudo isso, em verdade, pode fazer o espírito que se demora, indefinidamente, em certos ângulos da estrada.

            Todavia, avançar sem luz é impossível.